9º PubhD de Lisboa em revista

A história da psiquiatria em Portugal, a bioquímica do transporte de sais nas células, e a expansão do Universo foram os temas em conversa em Junho no PubhD de Lisboa.

O psiquiatra esquecido

O primeiro museu em Portugal dedicado a  mostrar ao público a arte produzida por pessoas com doenças mentais foi fundado em 1925 na Casa de Saúde do Telhal, no concelho de Sintra.

"Almas Delirantes", de Luís Cebola
“Almas Delirantes”, de Luís Cebola (Comercial Gráfica, Lisboa, 1925)

O acervo ainda hoje existe no Museu S. João de Deus – Psiquiatria e História. É uma herança deixada por Luís Cebola, psiquiatra português da primeira metade do século XX e que foi diretor clínico da Casa de Saúde do Telhal.

A par da expressão artística, Luís Cebola aplicou e desenvolveu também a ergoterapia – ou terapia ocupacional – no contexto da sua prática médica. Porém, pouco dele sabíamos até Denise Pereira estudar o seu legado no âmbito do doutoramento na Universidade Nova de Lisboa e na Universidade de Cambridge, no Reino Unido.

A tarefa da Denise não foi fácil, perante esta figura que se manteve afastada do meio académico e que não fez escola na psiquiatria portuguesa. Ainda para mais, Luís Cebola destruiu o seu espólio, com o intuito de controlar o que ficaria da sua memória, deixando pouco mais do que as suas obras.

A par da expressão artística, Luís Cebola aplicou e desenvolveu também a ergoterapia – ou terapia ocupacional

Encontram-se talvez nos alfarrabistas “Almas Delirantes” e “Psiquiatria Social”, dois dos títulos mais importantes deste médico contemporâneo de Sobral Cid e uma geração mais novo que Júlio de Matos.

A tese da Denise pode ser encontrada no seguinte endereço:
https://run.unl.pt/handle/10362/16309
Visões da psiquiatria, doença mental e república no trabalho do Psiquiatra Luís Cebola (1876-1967): uma abordagem histórica nas encruzilhadas da psiquiatria, ideologia política e ficção, em Portugal, na primeira metade do Século XX

Conhecer para curar

As mitocôndrias são as baterias da célula, produzindo a energia para os vários processos celulares.

Tal como numa pilha existe uma diferença de potencial eléctrico entre os dois pólos, também na mitocôndria a separação das partes positiva e negativa dos sais (designadas iões) gera diferenças de carga eléctrica.

Proteína
Modelo tridimensional de uma das proteínas estudadas por Afonso Duarte
Crédito: Afonso M. S. Duarte (ITQB-NOVA)

O transporte destes iões é feito por proteínas, moléculas que estão a ser estudadas por Afonso Duarte, investigador de pós-doutoramento no Instituto de Tecnologia Química e Biológica – António Xavier (ITQB), da Universidade Nova de Lisboa.

Verifica-se uma correlação entre alterações na estrutura destas proteínas e o desenvolvimento de Alzheimer e de certos tipos de cancro. Tal associação está longe de ser compreendida e o trabalho do Afonso poderá contribuir para uma futura explicação e para desenvolver tratamentos.

Uma só destas moléculas pode ter cerca de 600.000 átomos e está em interação com milhões de outras moléculas muito mais pequenas.

Neste momento o seu trabalho e dos seus colegas consiste em estudar em detalhe a estrutura destas proteínas e como elas interagem com o meio celular.

Pudemos ver um modelo à escala de uma destas moléculas trazido pelo Afonso Duarte. Uma só destas moléculas pode ter cerca de 600,000 átomos e estar em interação com milhões de outras moléculas muito mais pequenas, como moléculas de água. Segundo o Afonso, se uma destas proteínas ocupasse toda a sala do BIBO Bar, cada molécula de água poderia ser representada por um objeto do tamanho de uma caneta.

 

Um Universo maior a cada instante

Um contemporâneo de Luís Cebola, mas nos Estados Unidos, Edwin Hubble revelou em 1929 que o Universo está em expansão. As “cidades” em que as galáxias se reúnem, os chamados enxames de galáxias, estão a afastar-se umas das outras rumo a um futuro cada vez mais vazio e escuro.

Abell 370
Imagem: Enxame de Galáxias Abell 370
Crédito: NASA, ESA, the Hubble SM4 ERO Team and ST-ECF

No final do século XX descobriu-se que esta expansão está a acelerar, e não é apenas a consequência da inflação inicial ocorrida com o Big Bang.

O que impele esta ‘fuga’ das galáxias? No século XXI ainda não sabemos, disse-nos João Luís Rosa, investigador no Centro Multidisciplinar de Astrofísica (CENTRA), do Instituto Superior Técnico.

A teoria que explica como a gravidade funciona, a teoria da Relatividade Geral, de Albert Einstein, consegue descrever esta expansão se lhe acrescentarmos uma constante. Mas descrever não é explicar.

Qual é a força que produz a expansão? E quais são as variáveis de que ela depende? O João procura uma função que modifique a teoria da Relatividade Geral para explicar o que acontece nas grandes escalas do Universo.

A teoria da Relatividade Geral, de Einstein, consegue descrever esta expansão se lhe acrescentarmos uma constante. Mas descrever não é explicar.

Ao mesmo tempo, apresenta-se-lhe a dificuldade de respeitar os casos em que esta teoria já deu provas de estar correta – por exemplo, na previsão da órbita de Mercúrio à volta do Sol, ou na física das ondas gravitacionais. O João Luís Rosa procura uma solução híbrida que funcione tanto a pequenas como a grandes escalas.

 

Após uma pausa, o PubhD de Lisboa tem encontro marcado a 14 de Setembro para mais uma conversa sobre três novos temas. Se quiser estar sempre a par dos próximos eventos do PubhD de Lisboa, subscreva a mailing list.

2 thoughts on “9º PubhD de Lisboa em revista

  1. Bom dia Sérgio Pereira, na publicação que escreveu sobre o Dr. Luís Cebola refere que o Museu foi fundado em 1925, consegue dizer-me onde encontrou essa informação? Na tese da Denise Pereira não a encontrei, mas ainda não li a obra Almas Delirantes.

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    1. Olá Margarida,
      Estes resumos têm por base a informação divulgada pelos oradores durante a sessão PubhD de Lisboa. Se tiver alguma pergunta específica posso tentar encaminhar para a investigadora.
      Obrigado.

      Gostar

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