16º PubhD de Lisboa em revista

Um novo método de diagnóstico do cancro da mama, como podemos falar com rigor sobre arte produzida com computadores, e qual a relação entre privacidade e tolerância, foram os temas em conversa na sessão de março do PubhD de Lisboa.

Diagnóstico sem cirurgia

Tecnologia de imagem para a deteção do cancro da mama.
Montagem experimental no âmbito do desenvolvimento em laboratório de uma tecnologia de imagem para a deteção do cancro da mama. Créditos: António Almeida.

Os métodos usados atualmente no diagnóstico do cancro da mama têm, de uma forma ou de outra, desvantagens ou inconvenientes. Por exemplo, no caso de raios X, a exposição prolongada pode ela própria originar tumores, enquanto que os exames que utilizam ressonância magnética são dispendiosos.

João Felício, do Instituto de Telecomunicações, está a investigar uma alternativa – a utilização de microondas. Estas ondas, que nos são familiares tanto pelos aparelhos de cozinha como pela telefonia móvel, são, tal como os raios X, ondas eletromagnéticas, mas de muito menor energia.

As microondas, ao encontrarem um tumor no corpo humano, por este ter propriedades eletromagnéticas diferentes do tecido celular envolvente, são refletidas de modo diferente. Processando por meios informáticos o sinal refletido, é possível criar uma imagem do que se passa dentro do corpo.

O trabalho do João Felício está centrado na parte material deste novo sistema de diagnóstico, em particular aplicando a sua experiência em antenas que produzem esta família de ondas.

A análise dos nódulos linfáticos das axilas permite avaliar o estado da evolução do tumor. O grupo de trabalho do João Felício está focado nesta análise com uso de microondas, uma vez que ela permitirá evitar o método atual que exige uma intervenção cirúrgica.

No entanto, a inspeção de um tecido com recurso a microondas só é possível em casos de tumores superficiais, ou zonas do corpo pouco densas. Não poderá ser usada para o diagnóstico de cancros em zonas mais profundas do corpo.

O cancro da mama, à medida que progride e se espalha, acaba por afetar os nódulos linfáticos das axilas. A análise destes nódulos permite avaliar o estado da evolução do tumor. O grupo de trabalho do João Felício está focado nesta análise com uso de microondas, uma vez que ela permitirá evitar o único método atual de análise, que implica uma intervenção cirúrgica. Este é também um aspeto diferenciador desta equipa em relação a outras equipas no mundo que estão a investigar uma solução semelhante.

Arte, tecnologia e rigor

IBM 729
O IBM 729: Sistema de fita magnética de armazenamento de datos produzido entre 1950-1960.
Créditos: James Ball (a.k.a. Docubyte)

A fotografia baseada em película, dita analógica, e a baseada em computadores, dita digital, são essencialmente diferentes? E será mesmo necessário definir obras artísticas em termos do suporte que utilizam? Por exemplo, o que é que categorias como “novos media”, “multimédia” ou “transmédia” nos dizem sobre as obras de arte que pretendem classificar?

Estas são perguntas que interessam a Rodrigo Ramirez, da Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa. O Rodrigo pretende encontrar conceitos rigorosos, baseados na filosofia, que suportem o discurso artístico sobre arte que utiliza novas tecnologias, evitando a proliferação de termos vagos que surgem conforme a moda.

Para podermos falar com rigor de obras de arte tecnológicas, o Rodrigo considera essencial entender o que é um computador, do ponto de vista de ferramenta de trabalho, e o que é uma obra de arte. Sobre o primeiro, sabemos que é um mediador, como qualquer outra tecnologia humana. Além disso é uma máquina de modelar informação.

Já sobre o que é uma obra de arte, questão central da estética enquanto disciplina, Rodrigo alerta que cada obra pode ser vista segundo diferentes perspetivas, esquivando-se a qualquer descrição absoluta. Podemos analisá-la pelo ponto de vista dos materiais e das ferramentas que são necessárias para a produzir, das suas características físicas, de como a percecionamos, entre muitas outras abordagens.

É com base nestes alicerces que o Rodrigo Ramirez está a fundamentar um pensamento mais rigoroso e relevante sobre a arte que é produzida com computadores.

Privacidade ou tolerância

Créditos: Edel Rodriguez, The Boston Globe, Set. 15, 2014.

A distinção entre público e privado tem evoluído no tempo, e mesmo hoje os limites desta distinção são questionados pela forma como usamos as redes sociais. Por isso é difícil definir o conceito de privacidade.

Para Victor Correia, da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, nós mantemos privado algo que é muito pessoal, algo nosso, algo que não queremos que esteja na ‘praça pública’. Outra questão é o direito a ter essa privacidade. Ainda que o conceito de privacidade seja transversal à maioria das culturas, segundo o Victor, em muitas delas não existe a noção do direito a essa privacidade.

O direito à privacidade, quando garantido pela legislação, visa defender os cidadãos contra situações de intolerância. Quando falamos do direito às privacidades religiosa, política, médica, familiar, sexual ou financeira, referimo-nos ao direito de não revelar as nossas opções ou condições nestes vários domínios de modo a nos defendermos de eventuais reações sociais que nos prejudiquem.

Para o Victor, os direitos à privacidade e à tolerância não são compatíveis. Uma vez que o conceito de tolerância implica que esta seja em relação a algo que é ‘visível’, portanto público, a privacidade não pode ser usada como fundamento.

Victor Correia, ao longo do seu pós-doutoramento, estudou a privacidade segundo várias abordagens e uma delas foi a sua relação com a tolerância. Para o Victor, os direitos à privacidade e à tolerância não são compatíveis. Uma vez que o conceito de tolerância implica que esta seja em relação a algo que é ‘visível’, portanto público, a privacidade não pode ser usada como fundamento. Ou seja, se existisse um direito à tolerância – e uma obrigação de se ser tolerante – o direito à privacidade não seria necessário, uma vez que as pessoas não teriam de temer consequências.

Os vários artigos sobre o conceito de privacidade que o Victor Correia publicou estão num livro que se encontra disponível online no seguinte endereço:
https://www.academia.edu/29519931/Sobre_a_Privacidade_Acerca_de_la_Privacidad

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A próxima sessão do PubhD de Lisboa será a 12 de abril, no Bar Irreal. História e Neurociências são dois temas já confirmados.
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