José Eliézer Mikosz (Antar)1 falou-nos de poéticas visionárias e de como as reencontramos em dois artistas portugueses separados de quatro séculos.
Ao longo dos tempos e através das culturas, são recorrentes padrões geométricos, símbolos e representações espirituais que partilham semelhanças com visões alucinatórias. Para Antar Mikosz, são disso exemplo as espirais, assim como a auréola em redor de figuras sagradas.

Não são apenas as substâncias psicoativas a provocar alucinações e perturbações da ordem dos sentidos e da consciência, exploradas por exemplo pelas culturas xamânicas. Antar Mikosz disse-nos que dois por cento das pessoas as tem naturalmente, enquanto que noutras pessoas podem ser provocadas pela meditação ou pelo jejum prolongado, entre outras práticas com o mesmo fim.
Francisco de Holanda, no seu livro “Da Pintura Antiga”, escreveu sobre o “Furor Divino” como meio de inspiração.
O conceito de psicadélico, etimologicamente, significa revelar ou clarificar a alma, e por isso é bastante ampla a abordagem de Antar, no contexto do seu pós-doutoramento, aos estados especiais de perceção enquanto inspiração artística, não estando restrito ao uso de substâncias nem a um período histórico.
Antar Mikosz propôs-se investigar as poéticas visionárias e psicadélicas na obra de dois artistas portugueses separados de quatrocentos anos: Francisco de Holanda, que viveu no século XVI, e Lima de Freitas, que faleceu em 1998. Francisco de Holanda, no seu livro “Da Pintura Antiga”, escreveu sobre o “Furor Divino” como meio de inspiração. Já em Lima de Freitas, foi o conceito de “Paisagens Visionárias”, pintadas por este artista, que atraiu o interesse de Antar.

Para Antar Mikosz é fácil reconhecer a inspiração visionária nas obras destes dois artistas, tanto pelo extenso material sobre as manifestações visionárias em arte, psicologia e antropologia que explorou no contexto do seu doutoramento, como pela sua experiência pessoal numa comunidade religiosa no Brasil, sob o efeito de uma mistura usada para fins terapêuticos e espirituais, de nome ayahuasca.
Segundo este investigador, as substâncias psicoativas são uma fonte de inspiração e podem desbloquear uma criatividade natural latente, mas não “criam” artistas. Para além disso, desaconselha-se o seu uso recreativo e não acompanhado, uma vez que é sabido que podem favorecer ou acentuar problemas de saúde mental.
1. José Eliézer Mikosz (Antar) é investigador de pós-doutoramento na Universidade Estadual do Paraná (Unespar-Embap) e na Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa.