24º PubhD de Lisboa em revista

Crianças e espíritos nas práticas animistas, e a reconstituição da história do vidro a partir dos seus fragmentos, foram os temas em conversa na sessão de janeiro do PubhD de Lisboa.

Crianças e espíritos nas práticas animistas

Em certas comunidades da Guiné Bissau existe a prática de infanticídio, associada à visão do mundo da religião animista. Nas crenças animistas, cada ser humano tem uma alma, a qual não morre com a morte do corpo mas torna-se um espírito, reunindo-se aos dos antepassados. Alguns deles, acredita-se, voltam a habitar um corpo de criança.

Claudia Favarato, no 24º PubhD de Lisboa
Claudia Favarato, no 24º PubhD de Lisboa. (créditos: Carolina Figueira).

Claudia Favarato, investigadora no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa, está a estudar as implicações políticas da prática de infanticídio neste contexto africano. Como professora de português e inglês numa missão católica, teve contacto com as comunidades que o praticam, apesar de ser um assunto tabu de que não se fala no dia-a-dia.

Quando uma criança nestas comunidades nasce com visíveis características físicas ou mentais fora do normal – por exemplo com síndrome de Down, ser albino, ou até nascerem gémeos – ela não é vista como um humano, mas como um corpo habitado por um espírito. Se permanecer na comunidade irá trazer desgraças. São as chamadas crianças-irân.

Devido a uma conceção que está tão enraizada nestas culturas, a presença de uma criança-irân está naturalmente associada a medo e sofrimento.

Nestes casos, a comunidade realiza um ritual religioso para verificar a natureza humana ou espiritual da criança. No decurso deste ritual, a criança pode ser, por exemplo, deixada junto a um dos braços de mar que entra no território da Guiné Bissau e entregue aos desígnios das marés. Esta prática não é porém entendida pelas pessoas como um homicídio. É praticada tanto em meio rural como em meios urbanos, e é independente do nível de instrução das pessoas.

Segundo a Claudia, não é fácil o poder legislativo central da Guiné Bissau exercer o direito nestas regiões onde mesmo no tempo colonial português o poder não se impôs. No entanto, para a Claudia Favarato, não se deve impôr uma visão europeísta sobre este tema sem procurar entender e respeitar a cultura local, os seus princípios e valores.

Devido a uma conceção tão enraizada nestas culturas, a presença de uma criança-irân está naturalmente associada a medo e sofrimento. São portanto necessários mecanismos que tornem estas práticas menos lesivas, como por exemplo a criação de centros de acolhimento destas crianças que se situem fora das respetivas comunidades.

A reconstituição da história do vidro a partir dos seus fragmentos

Nas arcas de frio da Casa dos Bicos, em Lisboa, foram encontrados fragmentos de peças de luxo em vidro dos séculos XVI e XVII. Estes fragmentos foram estudados no seu projeto de mestrado por Francisca Pulido Valente, atualmente investigadora na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa, no âmbito da unidade de investigação VICARTE, dedicada ao estudo do vidro e da cerâmica nas artes.

Francisca Valente, no 24º PubhD de Lisboa
Francisca Valente, no 24º PubhD de Lisboa. (créditos: Carolina Figueira).

Além dos fragmentos, foram também encontradas ferramentas de fabrico, o que é algo singular, uma vez que a técnica de produção do tipo específico de decoração destas peças, a decoração millefiori, era secreta e apenas conhecida e praticada em Veneza, Itália.

Segundo a Francisca Valente, sabe-se que havia produção de vidro em Portugal, mas pouco se sabe sobre a realidade lisboeta anterior ao século XVIII devido à extensa destruição do terramoto de 1755. A Francisca está a estudar as quatro únicas coleções que são conhecidas em Portugal com vidro produzido com estas técnicas.

Ao ser conhecida a proveniência e a data rigorosa das peças, será possível atribuir-lhes um valor patrimonial e mesmo comercial.

As peças destas coleções tem características comuns entre si, mas diferentes das de peças com a mesma técnica decorativa encontradas noutros pontos da Europa e datadas da mesma época. Tal não é suficiente para hipotisar que sejam de fabrico nacional e não de importação, até porque, disse Francisca Valente, ainda não foi encontrado no nosso país nenhum forno de produção de vidro com vestígios deste tipo de peças.

É esta a questão que a Francisca está a tentar resolver. Ao ser conhecida a proveniência e a data rigorosa das peças, será possível atribuir-lhes um valor patrimonial e mesmo comercial.

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