41º PubhD de Lisboa em revista

Os Festivais da Canção e a relação entre a música e a televisão, e as novas abordagens para a regulação da cor da pele: estes foram os temas em conversa na sessão do 41º PubhD de Lisboa.

Festivais da Canção e a relação entre a música e a televisão

O concurso mais duradouro da televisão portuguesa, desde 1964 na RTP, mereceu a atenção por parte da Sofia Vieira Lopes, investigadora no Instituto de Etnomusicologia da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade NOVA de Lisboa (INET-MD). O Festival RTP da Canção, concurso português, leva os seus vencedores ao Festival Eurovisão da Canção. Neste último, onde vários países se reuniram no contexto do pós Segunda Guerra Mundial, criou-se uma comunidade em torno da tecnologia de broadcasting.

Através deste estudo, a Sofia pretende compreender de que forma é escolhida a representação nacional e como esta é pensada pelos diversos agentes envolvidos. Em 2017, o Festival RTP da Canção voltou à ribalta em Portugal devido à vitória de Salvador Sobral com o tema “Amar pelos Dois” e a primeira vitória portuguesa no Festival Eurovisão da Canção. 

Sofia Vieira Lopes
(Créditos: Carolina Figueira)

Mas a investigação da Sofia começou antes desse fenómeno e trouxe uma questão pertinente: o que é afinal uma música que possa representar o país num Festival?

“As alterações levam o Festival a adaptar-se à música que é produzida hoje em dia…

afirma, não havendo regras, impostas para a submissão de músicas, no que ao estilo diz respeito.

Este concurso é especial, não só pela sua longevidade (mais de 50 anos), mas porque congrega cerca de 700 canções originais, escritas propositadamente para o festival, e onde se reúnem mais de 1600 profissionais só da área da música. Foi durante muitos anos um evento fundamental para a carreira de muitos artistas portugueses. No entanto, a ligação entre as várias indústrias foi-se deteriorando, assim como a relação entre os artistas e o concurso.

O objetivo do estudo da Sofia é perceber a relevância do Festival da Canção, o seu papel nas memórias coletivas e na construção de narrativas sobre as identidades nacionais relacionadas com estas memórias.

Quer também perceber de que forma se criam “comunidades imaginadas” em torno da ideia da representação do país, como é que a música as operacionaliza e agrega. Ainda, espera desvendar o papel da televisão na criação destas narrativas e na forma de moldar as memórias coletivas.

Novas abordagens para a regulação da cor da pele

A Doença de Griscelli é uma doença genética rara, caracterizada pela falta de pigmentação da pele e que pode atingir na mesma proporção homens e mulheres. Além da aparência parcialmente albina, pode provocar reações do sistema do nosso corpo que nos defende de elementos estranhos, como bactérias e vírus, chamado sistema imunitário. É o objeto de estudo do João Charneca, investigador do Centro de Investigação em Doenças Crónicas (CEDOC) da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa.

A pigmentação da nossa pele deve-se à comunicação entre dois tipos de células: uma que envolve toda a nossa pele e recebe o pigmento, aquilo que dá a cor à pele, o queratinócito; e outra que produz a melanina (a cor), o melanócito, que se encontra mais fundo na nossa pele.

Podemos também encontrar melanócitos nos sinais que todos temos na pele, mais escuros e salientes. Para termos cor na nossa pele, a melanina que é produzida pelos melanócitos tem que ser transportada para os queratinócitos, que se encontram numa camada superior da pele. 

Os pacientes com a doença de Griscelli têm um defeito no transporte da melanina e o objetivo deste projeto é perceber este defeito. Para explicar o funcionamento da doença, o João levou a audiência por uma viagem a uma fábrica que todos temos. Esta fábrica é o melanócito, em forma de estrela. A melanina é uma caixa preta produzida no centro dessa fábrica. Quando a caixa preta está completa, e mantendo a analogia, é necessário um operário que pegue na caixa e a coloque num tapete rolante que a levará à saída. Esse operário é uma proteína (RAB27A) que as pessoas com a doença de Griscelli não têm. 

Não havendo um operário responsável por esta tarefa, as células ficam confusas, continuam a produzir caixas pretas e a acumulá-las na fábrica, como num armazém.

João Charneca
(Créditos: Andreia Ferreira)

O resultado é um tom de pele muito claro ou com muitos pontos escuros, tendo semelhanças com as sardas. Esta proteína não só trabalha nesta fábrica como assegura um trabalho semelhante no nosso sistema imunitário. Se não existir, estamos mais suscetíveis a doenças e outros problemas graves, resultantes de o sistema imunitário atacar o nosso próprio corpo, e que podem ser fatais. 

O único tratamento atual é um transplante de medula óssea: as células do dador conseguem compensar a proteína que está em falta. Este transplante não resolve totalmente o problema, apenas consegue curar os problemas de origem imunológica.

Os pacientes sujeitos a transplante continuam a ser mais propensos a ter cancros de pele e, sobretudo em países menos desenvolvidos onde a doença tem maior impacto, podem sofrer de problemas associados à discriminação racial. Não havendo a possibilidade de transplante de medula óssea, o paciente viverá dependente de medicamentos.

O objetivo da investigação do João é recriar a doença num contexto laboratorial através da produção de pele humana artificial. O método consiste em produzir a proteína fora do paciente, conseguir encapsulá-la num creme e que esse creme penetre na pele. O creme deverá penetrar o suficiente para chegar ao “centro da fábrica” e repor a proteína que está em falta. Se isso funcionar, mostrará que é possível solucionar o problema. 

39º PubhD de Lisboa em revista

Novos métodos de diagnóstico e terapia para o cancro da mama e a conservação das mantas gigantes no México

Novos métodos de diagnóstico e terapia para o cancro da mama

O cancro da mama é o tipo de cancro mais frequente entre as mulheres de todo o mundo. Segundo a Andreia Ferreira, investigadora de doutoramento no Centro de Estudos de Doenças Crónicas (CEDOC) da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa, em Portugal morrem cerca de 6000 mulheres por ano, o equivalente a quatro mulheres por dia. Apesar de existirem melhorias nos métodos de diagnóstico, sensibilização e formas de prevenção, ainda não se compreendem os mecanismos que levam uma célula a tornar-se invasiva.

Esta investigadora dedica-se, em particular, ao estudo de tumores não invasivos  e invasivos causadores das metástases (formação de novos tumores em diferentes órgãos) que são responsáveis pelo maior número de mortes. Está empenhada em fazer um estudo do carcinoma (tumor), nomeadamente através da análise de uma família de proteínas que transportam moléculas e controlam o seu “tráfego”, quer dentro das células, quer fora delas. Esta família de proteínas é pouco conhecida, havendo poucos estudos sobre a sua relação com o desenvolvimento de cancros invasivos. Ainda assim, a investigadora foca-se neste tipo específico de proteínas, referindo que 

Se não houvesse um se, não havia ciência.

Andreia Ferreira no 39º PubhD de Lisboa.
(créditos: Carolina Figueira)

A Andreia utiliza preferencialmente células de pacientes com cancro da mama, com amostras de tumores invasivos e não invasivos, que lhe permitem uma análise mais concreta da progressão desta doença. Mas, o acesso a estas amostras nem sempre é facilitado e nem todas podem ser utilizadas. Então, utiliza outros métodos para conseguir analisar a progressão do cancro da mama (como linhas celulares ou culturas de células em três dimensões).

O projeto procura compreender o papel deste tipo de proteínas na progressão do cancro da mama, comparando a sua expressão no cancro invasivo e não invasivo, com o objetivo de desenvolver terapias bem como métodos de diagnóstico, de forma a conseguir distinguir os casos que vão progredir para cancro da mama invasivo daqueles que nunca vão progredir. Deste modo, é possível evitar mastectomias (tratamento cirúrgico onde se remove completamente a mama) ou radioterapias desnecessárias, que atacam também outras partes do nosso organismo e têm acentuados efeitos secundários que afetam a nossa vida do dia-a-dia. 

A conservação das mantas gigantes no México

As mantas gigantes (Mobula birostris) são espécies oceânicas que podem medir 7 a 9 metros (de dimensão entre “asas”). Apelidadas de gentle giants, vivem em alto mar, possuem o maior cérebro dos peixes, reproduzem-se lentamente (a sua gestação decorre durante 12 meses e só têm crias a cada 3 ou 4 anos) e, também por isso, em 2011 foram consideradas uma espécie vulnerável. 

Madalena Cabral no 39º PubhD de Lisboa.
(créditos: Carolina Figueira)

Madalena Cabral, bióloga marinha e investigadora de doutoramento na Universidad Autónoma Baja California Sur, refere que as mantas gigantes não vivem nem sobrevivem em aquário e são pescadas quer intencionalmente, quer em redes de pescas de outros peixes. Quando pescadas, sobretudo pelas suas branquias (que filtram o plâncton, pequenos organismos que servem de alimento a animais maiores) são utilizadas principalmente na medicina chinesa em vários medicamentos tradicionais. 

As mantas valem mais vivas do que mortas,

uma vez que representam uma receita de cerca de 100 milhões de dólares por ano no turismo. Esta investigação tem o objetivo de compreender os hábitos das mantas gigantes, especificamente no México (como o facto de visitarem diversos locais e porquê) como meio de facilitar as tomadas de decisão acerca da gestão do espaço no que toca a esta espécie. Perceber, por exemplo, as zonas que devem ser protegidas, as alturas do ano em que as pescas devem ser suspensas, estabelecer os limites de pesca ou cooperação entre países.

Como ferramentas utiliza uma base de dados, criada em 2006, com fotografias do ventre das mantas que servem como impressão digital de cada uma. Estas fotografias podem ser tiradas por qualquer pessoa que faça mergulho, que envia para a base de dados e revele algumas indicações. Esta metodologia insere-se na Ciência Cidadã onde o cidadão comum participa ativamente na produção de conhecimento científico. 

A Madalena tem vindo a trabalhar também com um sistema de tags (etiquetas) que são ferramentas do tamanho de uma caneta, que se colocam nas mantas aquando do mergulho com arpão, possuem um sistema automático de libertação e que envia a informação por satélite. Uma vez que em profundidade este sistema não funciona, o tag envia a informação apenas quando a manta vem à superfície.

As rotas de movimento das mantas gigantes obtêm-se através da sobreposição de variáveis como mapas com os locais onde habitam, mapas de fotos por satélite, a clorofila ou a temperatura da água. Segundo a investigadora, as correntes marítimas podem também ter influência nestas rotas, mas é difícil obter dados que comprovem de que forma têm influência. Não descarta também a possibilidade das alterações climáticas a que assistimos poderem influenciar e transformar as rotas das mantas gigantes.

24º PubhD de Lisboa em revista

Crianças e espíritos nas práticas animistas, e a reconstituição da história do vidro a partir dos seus fragmentos, foram os temas em conversa na sessão de janeiro do PubhD de Lisboa.

Crianças e espíritos nas práticas animistas

Em certas comunidades da Guiné Bissau existe a prática de infanticídio, associada à visão do mundo da religião animista. Nas crenças animistas, cada ser humano tem uma alma, a qual não morre com a morte do corpo mas torna-se um espírito, reunindo-se aos dos antepassados. Alguns deles, acredita-se, voltam a habitar um corpo de criança.

Claudia Favarato, no 24º PubhD de Lisboa
Claudia Favarato, no 24º PubhD de Lisboa. (créditos: Carolina Figueira).

Claudia Favarato, investigadora no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa, está a estudar as implicações políticas da prática de infanticídio neste contexto africano. Como professora de português e inglês numa missão católica, teve contacto com as comunidades que o praticam, apesar de ser um assunto tabu de que não se fala no dia-a-dia.

Quando uma criança nestas comunidades nasce com visíveis características físicas ou mentais fora do normal – por exemplo com síndrome de Down, ser albino, ou até nascerem gémeos – ela não é vista como um humano, mas como um corpo habitado por um espírito. Se permanecer na comunidade irá trazer desgraças. São as chamadas crianças-irân.

Devido a uma conceção que está tão enraizada nestas culturas, a presença de uma criança-irân está naturalmente associada a medo e sofrimento.

Nestes casos, a comunidade realiza um ritual religioso para verificar a natureza humana ou espiritual da criança. No decurso deste ritual, a criança pode ser, por exemplo, deixada junto a um dos braços de mar que entra no território da Guiné Bissau e entregue aos desígnios das marés. Esta prática não é porém entendida pelas pessoas como um homicídio. É praticada tanto em meio rural como em meios urbanos, e é independente do nível de instrução das pessoas.

Segundo a Claudia, não é fácil o poder legislativo central da Guiné Bissau exercer o direito nestas regiões onde mesmo no tempo colonial português o poder não se impôs. No entanto, para a Claudia Favarato, não se deve impôr uma visão europeísta sobre este tema sem procurar entender e respeitar a cultura local, os seus princípios e valores.

Devido a uma conceção tão enraizada nestas culturas, a presença de uma criança-irân está naturalmente associada a medo e sofrimento. São portanto necessários mecanismos que tornem estas práticas menos lesivas, como por exemplo a criação de centros de acolhimento destas crianças que se situem fora das respetivas comunidades.

A reconstituição da história do vidro a partir dos seus fragmentos

Nas arcas de frio da Casa dos Bicos, em Lisboa, foram encontrados fragmentos de peças de luxo em vidro dos séculos XVI e XVII. Estes fragmentos foram estudados no seu projeto de mestrado por Francisca Pulido Valente, atualmente investigadora na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa, no âmbito da unidade de investigação VICARTE, dedicada ao estudo do vidro e da cerâmica nas artes.

Francisca Valente, no 24º PubhD de Lisboa
Francisca Valente, no 24º PubhD de Lisboa. (créditos: Carolina Figueira).

Além dos fragmentos, foram também encontradas ferramentas de fabrico, o que é algo singular, uma vez que a técnica de produção do tipo específico de decoração destas peças, a decoração millefiori, era secreta e apenas conhecida e praticada em Veneza, Itália.

Segundo a Francisca Valente, sabe-se que havia produção de vidro em Portugal, mas pouco se sabe sobre a realidade lisboeta anterior ao século XVIII devido à extensa destruição do terramoto de 1755. A Francisca está a estudar as quatro únicas coleções que são conhecidas em Portugal com vidro produzido com estas técnicas.

Ao ser conhecida a proveniência e a data rigorosa das peças, será possível atribuir-lhes um valor patrimonial e mesmo comercial.

As peças destas coleções tem características comuns entre si, mas diferentes das de peças com a mesma técnica decorativa encontradas noutros pontos da Europa e datadas da mesma época. Tal não é suficiente para hipotisar que sejam de fabrico nacional e não de importação, até porque, disse Francisca Valente, ainda não foi encontrado no nosso país nenhum forno de produção de vidro com vestígios deste tipo de peças.

É esta a questão que a Francisca está a tentar resolver. Ao ser conhecida a proveniência e a data rigorosa das peças, será possível atribuir-lhes um valor patrimonial e mesmo comercial.

21º PubhD de Lisboa em revista

Preservar a ecologia de São Tomé e Príncipe, e arrefecer com água em ebulição.

O resumo há muito aguardado da sessão de outubro, em que percebemos que não é só com as tartarugas que os biólogos se preocupam quando as tentam preservar em São Tomé e Príncipe, e em que descobrimos que há várias maneiras de ferver água e que algumas delas servem para arrefecer.

Além disso celebrámos com um quiz o 2º aniversário do PubhD de Lisboa, demonstrando que afinal sempre estamos a aprender umas coisas.

Preservar a ecologia de São Tomé e Príncipe

Tartaruga marinha.

No arquipélago de São Tomé e Príncipe, as tartarugas foram durante muito tempo caçadas para a alimentação e pelo valor decorativo das suas escamas. Como consequência, deu-se uma redução acentuada das populações das três espécies de tartaruga que utilizam este arquipélago para se alimentar, acasalar e desovar.

Segundo Joana Hancock, investigadora no Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais (cE3c), a redução destas populações afeta o ecossistema local de várias formas. Ao serem predadoras de alforrecas, uma espécie que por sua vez é predadora de larvas de peixe, as tartarugas ajudam a manter a quantidade de peixe disponível no mar de São Tomé e Príncipe. As regiões costeiras devem também a sua preservação aos restos orgânicos deixados pelas tartarugas e que nutrem a vegetação destas áreas.

No âmbito do seu doutoramento, a Joana está a estudar o estado de conservação das tartarugas neste arquipélago, caracterizando a forma como se reproduzem e se alimentam as três principais espécies. Neste contexto está também a analisar a sua distribuição geográfica e ligações que possam existir com outras populações das mesmas espécies no oceano Atlântico.

Ao serem predadoras de alforrecas, uma espécie que por sua vez é predadora de larvas de peixe, as tartarugas ajudam a manter a quantidade de peixe disponível no mar de São Tomé e Príncipe.

Embora a carne de tartaruga tenha feito parte da alimentação da população deste arquipélago, existem alternativas neste território e neste mar tão ricos. Através da legislação e da sensibilização, hoje a caça à tartaruga é bastante menor e a população local, em consequência do trabalho de associações de conservação, envolveu-se também nesta causa.

A Joana orgulha-se, por exemplo, de que no seu projeto de conservação participem ex-caçadores de tartaruga, que ajudam a apanhar estes animais nas rotinas de monitorização das espécies.

Arrefecer equipamento eletrónico com água em ebulição.

Numa panela com água em ebulição, formam-se bolhas devido às imperfeições na superfície do fundo da panela. São estas bolhas que, ao ascenderem e arrefecerem, permitem a circulação do calor, em vez de este permanecer concentrado junto à zona de contacto da panela com a fonte de calor.

É este princípio que poderá permitir o arrefecimento de aparelhos que naturalmente tendem a aquecer, como por exemplo os componentes eletrónicos.

Se pudermos “esculpir” as “imperfeições” na zona de contacto com a fonte de calor, poderemos otimizar a forma como o líquido, em ebulição, dissipa o calor gerado pelo componente eletrónico e o arrefece.

Segundo Emanuele Teodori, investigador no Instituto Superior Técnico, se pudermos “esculpir” as “imperfeições” na zona de contacto com a fonte de calor, poderemos otimizar a forma como o líquido, em ebulição, dissipa o calor gerado pelo componente eletrónico (por exemplo, um processador) e o arrefece. Os modos mais eficientes de ebulição da água serão produzidos por micro-cavidades na superfície que terão geometrias específicas que estão a ser estudadas pelo Emanuele.

O processo de ebulição, porém, é um fenómeno muito complexo. Para o otimizar, são necessários muitos ensaios e nem todos os fatores envolvidos estão já totalmente compreendidos.

No futuro, este sistema de arrefecimento poderá ser aplicado noutros equipamentos, como por exemplo nas baterias dos carros elétricos, que são mais eficientes a baixa temperatura.


A próxima sessão do PubhD de Lisboa será a 13 de dezembro, no Bar Irreal.
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19º PubhD de Lisboa em revista – parte 2

José Eliézer Mikosz (Antar)1 falou-nos de poéticas visionárias e de como as reencontramos em dois artistas portugueses separados de quatro séculos.

Ao longo dos tempos e através das culturas, são recorrentes padrões geométricos, símbolos e representações espirituais que partilham semelhanças com visões alucinatórias. Para Antar Mikosz, são disso exemplo as espirais, assim como a auréola em redor de figuras sagradas.

Gravura de "De Aetatibus Mundi Imagines"
Gravura de “De Aetatibus Mundi Imagines”, de Francisco de Holanda (Biblioteca Digital Hispánica), acedida em https://tendimag.com/2012/03/17/francisco-de-holanda-gravuras/

Não são apenas as substâncias psicoativas a provocar alucinações e perturbações da ordem dos sentidos e da consciência, exploradas por exemplo pelas culturas xamânicas. Antar Mikosz disse-nos que dois por cento das pessoas as tem naturalmente, enquanto que noutras pessoas podem ser provocadas pela meditação ou pelo jejum prolongado, entre outras práticas com o mesmo fim.

Francisco de Holanda, no seu livro “Da Pintura Antiga”, escreveu sobre o “Furor Divino” como meio de inspiração.

O conceito de psicadélico, etimologicamente, significa revelar ou clarificar a alma, e por isso é bastante ampla a abordagem de Antar, no contexto do seu pós-doutoramento, aos estados especiais de perceção enquanto inspiração artística, não estando restrito ao uso de substâncias nem a um período histórico.

Antar Mikosz propôs-se investigar as poéticas visionárias e psicadélicas na obra de dois artistas portugueses separados de quatrocentos anos: Francisco de Holanda, que viveu no século XVI, e Lima de Freitas, que faleceu em 1998. Francisco de Holanda, no seu livro “Da Pintura Antiga”, escreveu sobre o “Furor Divino” como meio de inspiração. Já em Lima de Freitas, foi o conceito de “Paisagens Visionárias”, pintadas por este artista, que atraiu o interesse de Antar.

O Sol da Justiça
O Sol da Justiça, tríptico de Lima de Freitas na sala de audiências do Tribunal Judicial da Lousã (acedida em http://www.redeconhecimentojustica.mj.pt/Category.aspx?id=58).

Para Antar Mikosz é fácil reconhecer a inspiração visionária nas obras destes dois artistas, tanto pelo extenso material sobre as manifestações visionárias em arte, psicologia e antropologia que explorou no contexto do seu doutoramento, como pela sua experiência pessoal numa comunidade religiosa no Brasil, sob o efeito de uma mistura usada para fins terapêuticos e espirituais, de nome ayahuasca.

Segundo este investigador, as substâncias psicoativas são uma fonte de inspiração e podem desbloquear uma criatividade natural latente, mas não “criam” artistas. Para além disso, desaconselha-se o seu uso recreativo e não acompanhado, uma vez que é sabido que podem favorecer ou acentuar problemas de saúde mental.

1. José Eliézer Mikosz (Antar) é investigador de pós-doutoramento na Universidade Estadual do Paraná (Unespar-Embap) e na Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa.