16º PubhD de Lisboa em revista

Um novo método de diagnóstico do cancro da mama, como podemos falar com rigor sobre arte produzida com computadores, e qual a relação entre privacidade e tolerância, foram os temas em conversa na sessão de março do PubhD de Lisboa.

Diagnóstico sem cirurgia

Tecnologia de imagem para a deteção do cancro da mama.
Montagem experimental no âmbito do desenvolvimento em laboratório de uma tecnologia de imagem para a deteção do cancro da mama. Créditos: António Almeida.

Os métodos usados atualmente no diagnóstico do cancro da mama têm, de uma forma ou de outra, desvantagens ou inconvenientes. Por exemplo, no caso de raios X, a exposição prolongada pode ela própria originar tumores, enquanto que os exames que utilizam ressonância magnética são dispendiosos.

João Felício, do Instituto de Telecomunicações, está a investigar uma alternativa – a utilização de microondas. Estas ondas, que nos são familiares tanto pelos aparelhos de cozinha como pela telefonia móvel, são, tal como os raios X, ondas eletromagnéticas, mas de muito menor energia.

As microondas, ao encontrarem um tumor no corpo humano, por este ter propriedades eletromagnéticas diferentes do tecido celular envolvente, são refletidas de modo diferente. Processando por meios informáticos o sinal refletido, é possível criar uma imagem do que se passa dentro do corpo.

O trabalho do João Felício está centrado na parte material deste novo sistema de diagnóstico, em particular aplicando a sua experiência em antenas que produzem esta família de ondas.

A análise dos nódulos linfáticos das axilas permite avaliar o estado da evolução do tumor. O grupo de trabalho do João Felício está focado nesta análise com uso de microondas, uma vez que ela permitirá evitar o método atual que exige uma intervenção cirúrgica.

No entanto, a inspeção de um tecido com recurso a microondas só é possível em casos de tumores superficiais, ou zonas do corpo pouco densas. Não poderá ser usada para o diagnóstico de cancros em zonas mais profundas do corpo.

O cancro da mama, à medida que progride e se espalha, acaba por afetar os nódulos linfáticos das axilas. A análise destes nódulos permite avaliar o estado da evolução do tumor. O grupo de trabalho do João Felício está focado nesta análise com uso de microondas, uma vez que ela permitirá evitar o único método atual de análise, que implica uma intervenção cirúrgica. Este é também um aspeto diferenciador desta equipa em relação a outras equipas no mundo que estão a investigar uma solução semelhante.

Arte, tecnologia e rigor

IBM 729
O IBM 729: Sistema de fita magnética de armazenamento de datos produzido entre 1950-1960.
Créditos: James Ball (a.k.a. Docubyte)

A fotografia baseada em película, dita analógica, e a baseada em computadores, dita digital, são essencialmente diferentes? E será mesmo necessário definir obras artísticas em termos do suporte que utilizam? Por exemplo, o que é que categorias como “novos media”, “multimédia” ou “transmédia” nos dizem sobre as obras de arte que pretendem classificar?

Estas são perguntas que interessam a Rodrigo Ramirez, da Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa. O Rodrigo pretende encontrar conceitos rigorosos, baseados na filosofia, que suportem o discurso artístico sobre arte que utiliza novas tecnologias, evitando a proliferação de termos vagos que surgem conforme a moda.

Para podermos falar com rigor de obras de arte tecnológicas, o Rodrigo considera essencial entender o que é um computador, do ponto de vista de ferramenta de trabalho, e o que é uma obra de arte. Sobre o primeiro, sabemos que é um mediador, como qualquer outra tecnologia humana. Além disso é uma máquina de modelar informação.

Já sobre o que é uma obra de arte, questão central da estética enquanto disciplina, Rodrigo alerta que cada obra pode ser vista segundo diferentes perspetivas, esquivando-se a qualquer descrição absoluta. Podemos analisá-la pelo ponto de vista dos materiais e das ferramentas que são necessárias para a produzir, das suas características físicas, de como a percecionamos, entre muitas outras abordagens.

É com base nestes alicerces que o Rodrigo Ramirez está a fundamentar um pensamento mais rigoroso e relevante sobre a arte que é produzida com computadores.

Privacidade ou tolerância

Créditos: Edel Rodriguez, The Boston Globe, Set. 15, 2014.

A distinção entre público e privado tem evoluído no tempo, e mesmo hoje os limites desta distinção são questionados pela forma como usamos as redes sociais. Por isso é difícil definir o conceito de privacidade.

Para Victor Correia, da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, nós mantemos privado algo que é muito pessoal, algo nosso, algo que não queremos que esteja na ‘praça pública’. Outra questão é o direito a ter essa privacidade. Ainda que o conceito de privacidade seja transversal à maioria das culturas, segundo o Victor, em muitas delas não existe a noção do direito a essa privacidade.

O direito à privacidade, quando garantido pela legislação, visa defender os cidadãos contra situações de intolerância. Quando falamos do direito às privacidades religiosa, política, médica, familiar, sexual ou financeira, referimo-nos ao direito de não revelar as nossas opções ou condições nestes vários domínios de modo a nos defendermos de eventuais reações sociais que nos prejudiquem.

Para o Victor, os direitos à privacidade e à tolerância não são compatíveis. Uma vez que o conceito de tolerância implica que esta seja em relação a algo que é ‘visível’, portanto público, a privacidade não pode ser usada como fundamento.

Victor Correia, ao longo do seu pós-doutoramento, estudou a privacidade segundo várias abordagens e uma delas foi a sua relação com a tolerância. Para o Victor, os direitos à privacidade e à tolerância não são compatíveis. Uma vez que o conceito de tolerância implica que esta seja em relação a algo que é ‘visível’, portanto público, a privacidade não pode ser usada como fundamento. Ou seja, se existisse um direito à tolerância – e uma obrigação de se ser tolerante – o direito à privacidade não seria necessário, uma vez que as pessoas não teriam de temer consequências.

Os vários artigos sobre o conceito de privacidade que o Victor Correia publicou estão num livro que se encontra disponível online no seguinte endereço:
https://www.academia.edu/29519931/Sobre_a_Privacidade_Acerca_de_la_Privacidad

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A próxima sessão do PubhD de Lisboa será a 12 de abril, no Bar Irreal. História e Neurociências são dois temas já confirmados.
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14º PubhD de Lisboa em revista

A tecnologia percorreu os três temas do PubhD de Lisboa de janeiro.

Comparar imagens para encontrar respostas

Imagem extraída do website Nova Medical Search
Imagem extraída do website Nova Medical Search,
https://medical.novasearch.org/general/example/3

Os médicos recorrem a vários auxiliares para fazerem um diagnóstico. Um deles consiste em pesquisar nos artigos científicos por casos semelhantes, executando pesquisas de texto, como a que fazemos nos motores de busca na internet.

No entanto, existe informação nas imagens médicas que acompanham os artigos científicos e que está ausente do conteúdo textual. Se o médico puder comparar imagens de exames clínicos do seu paciente com imagens de casos semelhantes, poderá encontrar artigos científicos que não lhe seriam listados numa pesquisa apenas pelo texto.

É nesta área que está a trabalhar o André Mourão, permitindo que um médico faça o “upload”, ou carregue uma imagem para um sistema que, de forma automática, a irá analisar e comparar com milhares, ou mesmo milhões, de outras imagens nas bases de dados da literatura médica em acesso aberto.

Investigador em informática no laboratório NOVA-LINCS da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa, o André trabalha com o reconhecimento automático de imagens, a otimização do sistema para pesquisas em larga escala, e a integração da informação textual e visual.

Se o médico puder comparar imagens de exames clínicos, poderá encontrar artigos científicos que não lhe seriam listados numa pesquisa apenas pelo texto.

O protótipo deste sistema está disponível num endereço público, mas o André recomenda que não seja usado com imagens médicas pessoais, sendo uma futura ferramenta de apoio à atividade profissional em medicina. O endereço é http://medical.novasearch.org

A arte e a tecnologia de mãos dadas, ou nem por isso

Robotic Action Painter
Obra criada por RAP – Robotic Action Painter.
Créditos: Leonel Moura. Imagem extraída do website http://obviousmag.org

“Toda a arte é tecnológica”, disse José Oliveira, que investigou o tema do código, genético ou informático, na arte portuguesa da segunda metade do século XX. Recém-doutorado em História da Arte pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, o José estudou o trabalho de artistas como Marta de Menezes e Leonel Moura, e sondou as repercussões desse trabalho junto dos cientistas com quem contactaram.

Segundo o José Oliveira, desde a década de 60 que os artistas que trabalham meios de expressão tecnológicos, ou inspirados na ciência, utilizam processos de disseminação paralelos às instituições tradicionais do meio artístico. São processos que visam mostrar e legitimar a sua arte ‘proscrita’, tal como o fizeram os seus antecessores impressionistas no século XIX.

José Oliveira apercebeu-se que as residências artísticas não têm real impacto sobre o fazer da ciência, e que são raros os casos de cientistas que fazem residências em ateliês ou escolas de artes.

Em pleno século XXI, porém, está quase generalizada a ideia de que os artistas, por pensarem ‘fora da caixa’, podem gerar novas ideias e promover a inovação científica e tecnológica. Existe um interesse político pelo cruzamento entre a arte e as ciências, e são muitos os apoios para os artistas que queiram trabalhar nesta fronteira, nomeadamente programas de residências artísticas em centros de investigação.

Nos seus contactos com cientistas, o José Oliveira apercebeu-se que as residências artísticas não têm real impacto sobre o fazer da ciência. Por outro lado, são raros os casos de cientistas que fazem residências em ateliês ou escolas de artes.

Serve a arte, como disse José Oliveira, para “questionar e fazer-nos pensar sobre o que nos rodeia”, incluindo o fazer da ciência e a tecnologia que permeia a sociedade? Ou poderá, em muitos casos, como uma pessoa na assistência sugeriu, estar a ser aproveitada como forma de promoção da própria ciência e da tecnologia em que se inspira?

Produzir medicamentos mais baratos e acessíveis

Rita Santos
Rita Santos, do ITQB, no PubhD de Lisboa

A insulina, uma substância que é administrada a pessoas com diabetes, é um exemplo de um fármaco que começou por ser produzido artificialmente com recurso a colónias de bactérias. Como as substâncias produzidas por bactérias não são exatamente iguais às produzidas pelo corpo humano, podem ocorrer reações alérgicas, o que motivou o desenvolvimento da produção usando células de animais, mais semelhantes às do nosso organismo.

Porém, as células animais são muito sensíveis ao contacto humano no ambiente de produção (por exemplo, à presença de um vírus da gripe), pelo que obrigam a custos significativos ao nível do equipamento.

É fácil e barato produzir fármacos com células de plantas modificadas geneticamente. Uma das vantagens será tornar mais acessíveis certos medicamentos em países em desenvolvimento.

Rita Santos trabalha com uma solução recente, que soluciona ambos os problemas anteriores: a utilização de células de plantas. A Rita é investigadora no Instituto de Tecnologia Química e Biológica, da Universidade Nova de Lisboa e trabalha com culturas de células de plantas modificadas geneticamente para produzirem fármacos.

A introdução no ADN das células de plantas do código genético para produzir, por exemplo, proteínas humanas, como a insulina, é um processo fácil e barato. Uma das vantagens será tornar mais acessíveis certos medicamentos em países em desenvolvimento.

Será ainda necessário descobrir formas de aumentar a produtividade, até que as empresas farmacêuticas decidam investir mais nesta tecnologia. Por outro lado, segundo a Rita, a legislação europeia sobre organismos geneticamente modificados é excessivamente restritiva, o que limita a investigação usando culturas de plantas ao ar livre, processo de produção que teria várias vantagens.


A próxima sessão do PubhD de Lisboa será a 8 de fevereiro, no Bar Irreal. Psicologia Social e Oceanografia são dois temas já confirmados.
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13º PubhD de Lisboa em revista

A relação entre asma e eczema em crianças escocesas, cooperativas de bairro para o aproveitamento da energia solar, e a tecnologia do frio e a crise dos bacalhoeiros nos anos 30, foram alguns dos tópicos em conversa a 14 de dezembro.

Genes e fatores ambientais na saúde de crianças escocesas.

Asma e eczema e a mutação num gene.
Imagem de Cátia Bandeiras

O eczema, uma doença de pele, e a asma, uma doença respiratória, apesar de terem manifestações muito diferentes, estão relacionadas. Ambas têm uma componente alérgica. Sabe-se que crianças que têm eczema muito cedo e simultaneamente uma mutação num gene, têm maior probabilidade de vir a ter asma uns anos mais tarde.

Patrícia Soares, que é investigadora na Brighton and Sussex Medical School, no Reino Unido, está a estudar um conjunto de 1000 crianças escocesas que têm asma ou eczema.

O corpo de cada pessoa reage aos tratamentos para a asma ou o eczema de forma diferente.

Na Escócia, cerca de 18% da população tem estas doenças, o que pode ter tanto uma origem genética na população escocesa, como ser devido ao modo de vida nesta região. Fatores ambientais que favorecem o desenvolvimento destas doenças são o excesso de humidade e a utilização de materiais domésticos que a concentram, como as alcatifas.

O corpo de cada pessoa reage aos tratamentos para a asma ou o eczema de forma diferente. A Patrícia investiga a relação entre a mutação genética, a expressão mais ou menos intensa da doença, e a resposta a diferentes tratamentos. O seu objetivo é encontrar formas de administrar tratamentos personalizados para cada pessoa.

Estudar o urbanismo para melhor produzir eletricidade

Edifício Solaire, Nova Iorque
Edifício Solaire, em Nova Iorque. A fachada com painéis fotovoltaicos demonstra a integração estética de um sistema de geração de energia. (Créditos: solardesign.com)

No inverno, quando o Sol está mais baixo no céu, é mais eficaz o aproveitamento da radiação solar para geração de energia elétrica se os painéis solares estiverem nas fachadas dos edifícios. A fachada sul é a que permitirá maior produção de eletricidade, mas deverão igualmente ser consideradas as viradas a leste e a oeste, aproveitando o nascente e o ocaso, momentos do dia em que o consumo doméstico de eletricidade começa a aumentar.

Definir a instalação ideal destes painéis tendo em conta a geografia e a arquitetura urbana é o trabalho que está a fazer a Sara Freitas, investigadora no Instituto Dom Luiz da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e no programa doutoral MIT Portugal.

A Sara está a estudar alguns bairros de Lisboa, como por exemplo os Olivais, e acredita que o sucesso desta ideia dependerá não só do desenvolvimento de cooperativas de geração e auto-consumo entre os diferentes condomínios do mesmo bairro, mas também da estreita colaboração entre engenheiros e arquitetos.

O sucesso desta ideia dependerá do desenvolvimento de cooperativas de geração e auto-consumo entre os diferentes condomínios do mesmo bairro.

O mercado das soluções de células fotovoltaicas e painéis solares tem vindo a tornar-se mais acessível e a diversificar-se. Materiais de diferentes cores e maleáveis permitem já um leque de soluções estéticas que ajudarão a promover a viragem para o auto-consumo de energia elétrica em meio urbano.

A tecnologia do frio, do Estado Novo ao setor privado.

Susana Domingues
Susana Domingues explicando a tecnologia do frio industrial em Portugal no século XX. (Crédito: Sara Freitas)

No contexto de uma crise dos bacalhoeiros nos anos 30, o governo do Estado Novo viu a necessidade de conservar o bacalhau de um ano para o outro. Decidiu então investir na tecnologia do frio industrial, mandando construir uma rede de armazéns frigoríficos, de que é um exemplo o edifício onde está hoje instalado o Museu do Oriente, em Alcântara, Lisboa.

É neste museu que Susana Domingues faz visitas guiadas com enfoque na arquitetura industrial do edifício, embora atualmente esvaziado do antigo equipamento do frio.

O frio industrial é o ponto de partida de uma cadeia que termina nos nossos frigoríficos domésticos.

Investigadora no Instituto de História Contemporânea da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, a Susana está a pesquisar a história desta tecnologia no nosso país até 1986, ano em que ingressámos na Comunidade Económica Europeia e se extinguiram vários organismos nacionais de regulamentação económica.

Apesar de a iniciativa partir do Estado, a Susana tem verificado que grande parte da rede do frio em Portugal, sobretudo nos anos 60 e 70, foi desenvolvida pelo setor privado, sendo, por exemplo, a Olá um dos principais atores.

Segundo explicou a Susana, o frio industrial é o ponto de partida de uma cadeia que termina nos nossos frigoríficos domésticos. Desenvolveu-se ao longo do século XX para responder aos padrões de qualidade e de conservação dos alimentos exigidos pela moderna sociedade de consumo.


Leia também o resumo do 13º PubhD de Lisboa, em inglês, publicado por Cátia Bandeiras no seu blogue:
https://apulgarita.wordpress.com/2016/12/18/pubhd-explain-your-phd-in-a-bar/

A 11 de janeiro teremos mais uma conversa, desta vez sobre História da Arte, Informática, e um terceiro tema para o qual procuramos um orador – Contacte-nos ou divulgue!
Saiba mais sobre o próximo evento. Será no Bar Irreal.

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12º PubhD de Lisboa em revista

O cérebro e a mente estiveram em foco a 9 de novembro com três investigadores do Colégio Mente-Cérebro1 da Universidade de Lisboa.

 

Parkinson e a molécula da cafeína

Com o envelhecimento da população nas sociedades ocidentais, há cada vez mais pessoas com a doença de Parkinson. Tremores e movimentos lentos são alguns dos sintomas mais evidentes, mas nessa altura já 60% dos neurónios da região do cérebro afetada estão modificados.

Como a cafeína tem efeitos secundários que podem ser prejudiciais, identificaram-se entretanto moléculas semelhantes.

Segundo Diana Ferreira, do Instituto de Medicina Molecular da Universidade de Lisboa, a danificação dos neurónios, que ocorre logo no estado inicial da doença, deve-se à formação de agregados de proteínas dentro do neurónio. Este processo ainda não é bem compreendido, o que dificulta a identificação de um tratamento.

Em estudos em que se utilizaram ratos, disse-nos a Diana, verificou-se porém que a cafeína diminui o risco de desenvolvimento da doença de Parkinson, podendo tanto prevenir como reverter os sintomas.

Como a cafeína tem efeitos secundários que podem ser prejudiciais, identificaram-se entretanto moléculas semelhantes que atuam especificamente nos recetores dos neurónios onde se pretende intervir. É neste trabalho que está centrado o doutoramento da Diana.

Testes de memória e a plasticidade do cérebro

Os testes de memória aparentam ser um método de avaliação inócuo, mas sabe-se que o processo de recuperação da memória pode alterar a própria memória que está armazenada.

A informação que é fornecida num teste de memória pode ajudar a aprender.

Pedro Marques, da Faculdade de Psicologia da Universidade de Lisboa, interessou-se pelas formas como o nosso cérebro se adapta à informação que é fornecida num teste de memória para a posterior aprendizagem de conteúdo semelhante. De facto, os testes de memória, a médio prazo, promovem a aprendizagem.

A informação que é fornecida num teste de memória pode servir para distrair, ou para ajudar a recordar, mas também para ajudar a aprender. O Pedro identificou mecanismos mentais de adaptação a essa informação que, no futuro, poderão ser considerados no desenho de testes de memória usados como ferramentas de aprendizagem.

Imagens da epilepsia

A maior parte dos doentes com epilepsia não reage aos medicamentos. Em certos casos é necessário recorrer à intervenção cirúrgica, que consiste em remover a região do cérebro que é responsável pelo distúrbio epilético, caso esta não seja também responsável por funções cerebrais importantes.

Como a atividade epilética é imprevisível, é importante obter em simultâneo a informação obtida por diversas modalidades de imagem.

Para se circunscrever a área do cérebro é usado um conjunto de tecnologias, como nos descreveu Rodolfo Abreu, do Laboratório de Sistemas Evolutivos e Engenharia Biomédica.

Como a atividade epilética é imprevisível, é importante obter em simultâneo a informação obtida por diversas modalidades de imagem, construindo assim um retrato tão completo quanto possível do que está a acontecer no cérebro em cada momento.

O trabalho do Rodolfo consiste em otimizar a utilização simultânea de um conjunto de tecnologias de imagem do cérebro, em concreto, a ressonância magnética funcional, ou fMRI, e a eletroencefalografia, ou EEG. O desafio advém do facto de estas tecnologias terem sido desenvolvidas separadamente e, portanto, a sua integração levantar um conjunto de dificuldades.

O Rodolfo, além disso, está a desenvolver métodos de ‘tradução’ entre as duas tecnologias, ou seja, métodos que associem o que se vê numa imagem ao que se vê na outra.


A 14 de dezembro teremos mais uma conversa, desta vez sobre História da Tecnologia, Medicina, e Sistemas Sustentávies de Energia. Saiba mais sobre o próximo evento.
Será na nova casa do PubhD de Lisboa, o Bar Irreal.

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Notas: 1. O Colégio Mente-Cérebro tem como objetivo potenciar as capacidades da Universidade de Lisboa no estudo da mente e do cérebro através de parcerias e da articulação em rede entre diversas instituições, incluindo laboratórios, institutos, departamentos e infraestruturas.

11º PubhD de Lisboa em revista

O sugador das pinhas e o preço do pinhão

Sugador das pinhas
Leptoglossus occidentalis
Créditos: Peter Pearson

É originário da Califórnia e entrou em território português em 2010. O sugador das pinhas é um inseto que nos Estados Unidos prefere uma espécie de abeto, mas em Portugal receia-se que venha a fazer do pinhão do pinheiro manso a sua refeição principal.

Em Itália provocou uma quebra de 80% na produção do pinhão. Em Portugal o desastre não foi tão acentuado, mas Ana Farinha, investigadora no Instituto Superior de Agronomia da Universidade de Lisboa, procura conhecer os hábitos desta espécie de inseto com vista a controlar a sua população.

A tarefa não é fácil e a Ana conta com a colaboração dos produtores. O Leptoglossus occidentalis (o seu nome científico) hiberna e em geral é muito esquivo, ainda que seja bastante social (por exemplo, alimentam-se em grupo).

A Ana trabalha sobretudo na região de Alcácer do Sal. Junto com Coruche, Grândola e o Estuário do Sado, é uma das regiões de maior produção nacional do pinhão comestível.

Um cardápio de modelos fiscais

Qual o modo ótimo de o Estado arrecadar receita minimizando as desigualdades e favorecendo a sustentabilidade das empresas? É a ambiciosa pergunta a que está a tentar responder José Alves, investigador no Instituto Superior de Economia e Gestão da Universidade de Lisboa.

O seu objetivo é disponibilizar aos decisores políticos, em matéria fiscal, um conjunto de modelos que estes possam escolher consoante as suas opções políticas, sociais e económicas.

São muitas as variáveis a ter em conta. Por exemplo, os impostos progressivos sobre o rendimento são mais igualitários do que os impostos fixos sobre o consumo.

O José está a estudar e a comparar os modelos fiscais de vários países, como os Estados Unidos e a Alemanha.

São muitas as variáveis a ter em conta nestes modelos. Por exemplo, os impostos diretos progressivos, como o IRS, são mais igualitários do que os impostos indiretos. Por outro lado, o desenho de alguns impostos pode acarretar pesadas despesas administrativas para o Estado, o que os torna pouco compensadores.

É este o meu corpo?

A ilusão da mão de borracha
A ilusão da mão de borracha
Créditos: BBC

Como é que reconhecemos o nosso corpo como nosso? Há experiências que demonstram que podemos ser induzidos a acreditar que um outro corpo faz parte de nós.

É com base nesses primeiros estudos sobre a sensação de propriedade do corpo que Victòria Brugada Ramentol, investigadora no Programa de Neurociências da Fundação Champalimaud, está a desenvolver a sua tese sobre como nos representamos a nós próprios.

A Victòria procura tirar consequências sobre a sensação de propriedade e de agência – sermos responsáveis pelos nossos gestos – e que podem ter importantes aplicações. Por exemplo, no estudo da empatia e das interações sociais, inclusive em ambientes virtuais digitais.

Ajude-a na sua investigação participando em experiências de realidade aumentada. Demoram no máximo uma hora e meia, na Fundação Champalimaud (Algés).

 

Em outubro celebrámos um ano de sessões PubhD em Lisboa e o BIBO Bar ofereceu o bolo de aniversário.
A 9 de novembro teremos uma edição especial Colégio Doutoral Mente-Cérebro, onde iremos confirmar como o estudo do cérebro e da mente precisa da colaboração interdisciplinar de diferentes áreas da investigação académica.

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