Como lançar um PubhD

A ideia e o formato

PubhD (Pub + PhD) teve a sua origem numa conversa de pub em Nottingham. Começou com a pergunta “Será que se pagarmos uma cerveja a estudantes de doutoramento conseguimos convencê-los a vir a um bar falar sobre o que investigam?”.

Em Janeiro de 2014 aconteceu em Nottingham o primeiro PubhD, pela iniciativa de Kash Farooq e Regan Naughton.

O formato é o seguinte:

  1. Dois ou três estudantes de doutoramento, de áreas académicas diferentes, têm 10 minutos cada um para explicar a sua investigação a uma assistência num pub ou num bar.
  2. Por cada orador, e logo a seguir à respetiva apresentação, seguem-se 20, ou 25 minutos de troca de perguntas e respostas com a assistência.
  3. Cada orador permanece ‘em palco’ pelo menos 30 minutos, com intervalos de 10 minutos entre cada um.
  4. Apenas são disponibilizados um quadro branco e marcadores. Os oradores poderão trazer objetos que ilustrem a sua investigação.
  5. A cada orador são oferecidas, ao longo do evento, pelo menos uma ou duas bebidas.

Temas, nível das apresentações e o papel dos organizadores

O programa dos temas de cada evento é composto por um equilíbrio entre ciências, humanidades, engenharias e artes (lê as vantagens na nota de rodapé 1).

Qualquer pessoa deverá poder entender os temas apresentados, seja o barman, seja o cliente habitual do bar. O que dizemos aos oradores é: “Imagina que estás num bar e alguém te pergunta o que fazes.” É este o nível esperado das apresentações.

Com frequência é necessária a intervenção dos organizadores como moderadores, seja durante a apresentação pedindo ao orador para explicar os termos técnicos, seja durante a fase de perguntas e respostas. Nesta fase há vários aspetos a gerir:

  • gerir a inscrição das perguntas, poupando esse trabalho ao orador;
  • pedir ao orador para ‘traduzir’ as perguntas mais técnicas em linguagem comum;
  • oferecer ao maior número de pessoas a oportunidade de colocar uma questão, e evitar a monopolização da conversa por uma ou duas pessoas;
  • colocar perguntas ‘básicas’, caso a conversa se esteja a tornar técnica, de modo a incentivar a parte da assistência não especialista a colocar questões também;
  • preencher a totalidade do tempo para perguntas, seja colocando perguntas que se traga ‘na manga’ (vê alguns exemplos genéricos na nota de rodapé 2), seja pressionando a assistência a colocar questões (não há que recear o silêncio – faz parte da conversa);
  • evitar que as apresentações ou as perguntas excedam o tempo e que o evento se prolongue para além da hora prevista;
  • garantir um ambiente amigável e de genuíno interesse.

O PubhD não é uma palestra. Em 10 minutos, os oradores oferecem apenas uma visão panorâmica da sua área de pesquisa.

A maior parte do tempo é dedicada às perguntas. Assim o público pode orientar a conversa para o que mais lhe interessa saber – mas sem se desviar do tema trazido pelo orador!

Além disso, ao incentivar o público a colocar perguntas, convidamo-lo a pensar ativamente no tema, o que facilita a assimilação da informação.

Os intervalos são importantes para a assistência se conhecer, para se prolongar a conversa num registo informal e para os oradores saborearem as bebidas! Se o bar ceder o espaço gratuitamente, é importante que a assistência faça algum consumo, o que acontecerá sobretudo no intervalo.

Porquê o PubhD

Lê também este artigo sobre as vantagens do formato PubhD.

Benefícios para quem vem assistir

O PubhD é uma atividade de divulgação da investigação académica. Todos os temas que são investigados ao nível de doutoramento ou pós-doutoramento são susceptíveis de interessar uma assistência num bar. Mesmo os temas mais técnicos podem ser comunicados por oradores de exceção que falam deles de forma apaixonante.

E é surpreendente a quantidade de temas aparentemente desconhecidos que merecem ser falados mais vezes fora das universidades.

Benefícios para quem vem apresentar o seu doutoramento

Para os investigadores, o PubhD é uma oportunidade para praticarem comunicação em público. Embora tenham de comunicar o seu trabalho em conferências e reuniões, e eventualmente defender a sua tese, muitos não têm preparação formal nesta área no âmbito dos seus programas de doutoramento.

No entanto, o PubhD não é um contexto de formação. É antes um espaço informal para ensaiarem as suas técnicas de comunicação em público e aprenderem com outros oradores.

Os oradores podem incluir no seu CV a sua participação num PubhD. Em algumas cidades, como em Lisboa, entregamos-lhes um certificado de participação.

Organizar um PubhD

Ser organizador

Não é preciso ser um investigador, ou estar ligado a uma  universidade, ou trabalhar na área da comunicação de ciência para lançar um PubhD. Basta apenas ter curiosidade pela curiosidade dos outros, e algum tempo livre.

Os organizadores dos PubhD que já existem são em geral voluntários, independentes de qualquer instituição. Cada iniciativa é gerida por um ou mais organizadores.

Há uma rede internacional de organizadores que se entreajuda com dicas, sugestões e conselhos, assim como uma rede portuguesa. Ambas comunicam pela plataforma Facebook.

Não existe nenhuma formalidade para lançar um PubhD, mas também não existe apoio financeiro. Existe sim apoio em termos de informação. Em contrapartida agradecemos apenas a menção à ideia original, indicando o website do PubhD de Nottingham ou o PubhD.org.

Se tiveres interesse em lançar um PubhD na tua cidade, entra em contacto.

Local

É uma boa ideia procurar lugares onde já seja hábito realizarem-se conversas ou onde já exista um programa cultural.

Uma sala à parte do espaço principal, com boa acústica, é uma opção, mas também pode ser a sala principal, se o bar ceder o espaço. Alguns PubhD optaram por usar microfone, embora retire um pouco da informalidade pretendida.

Um bar que já tenha um programa cultural será talvez mais experiente com as questões de gestão de um evento, além de que será um óptimo parceiro na divulgação, chegando a um público não-académico.

Atenção às salas com televisores! São com frequência usadas em dias de jogos de futebol.

Como um PubhD por norma é uma iniciativa não institucional e sem financiamento, dever-se-á encontrar um bar que ceda o espaço a título gratuito. Tal não será difícil de conseguir se a hora do evento for num período de pouco movimento.

Quando

Os eventos PubhD acontecem, em geral, uma vês por mês. A escolha do dia e da hora depende do público que se pretende atingir e dos hábitos da cidade, ou até do estilo de clientes do bar onde acontece o PubhD.

O público que vem ao bar num dia de semana às 19h30 é diferente do que virá às 21h30, assim como estes serão diferentes do público que viria num sábado às 17h00.

O PubhD de Lisboa, por exemplo, acontece sempre na segunda quarta-feira do mês. Convém manter uma data mensal e uma hora fixas – a regularidade é o primeiro passo para ganhar uma assistência fiel.

Os oradores

É característica dos PubhD a diversidade de temas num mesmo evento, e dos questionários que temos feito em Lisboa, é a razão principal que traz as pessoas ao PubhD. Isto permite atrair diferentes públicos e cruzar diferentes experiências.

Por princípio mantemos um equilíbrio entre Ciências, Humanidades, Engenharias e Artes, assim como um equilíbrio entre mulheres e homens.

Por definição, o PubhD dá preferência a doutorandos, mas ocasionalmente podem receber-se investigadores de pós-doutoramento ou até investigadores ‘profissionais’ em empresas, se tiverem autorização para divulgar o seu trabalho. Em cidades mais pequenas é comum aceitar estudantes de mestrado.

Conseguir oradores

Uma forma de ‘recrutar’ oradores consiste em enviar e-mails para os departamentos das universidades, os gabinetes de comunicação dos centros de investigação, as associações de estudantes de doutoramento, e contactando diretamente orientadores de doutoramento ou responsáveis por programas doutorais.

Algumas páginas das universidades têm listagens dos estudantes de doutoramento, e algumas incluem até os seus contactos. O Twitter e o Linkedin são também ferramentas úteis para pesquisa e contacto, tanto de investigadores como de centros de investigação.

O “passa palavra” é muito eficaz e por isso fala com todas as pessoas que conheças que possam ter contacto com estudantes de doutoramento.

Convém ter uma rotina de pesquisa de oradores de modo a ter vários eventos já preenchidos antecipadamente. Tem várias vantagens:

  • Evitar a pressão de procurar oradores para um evento que está apenas a algumas semanas.
  • Equilibrar e diversificar os temas de cada evento, escolhendo de uma lista de vários oradores que se inscreveram.
  • Divulgar o programa do próximo evento no final do anterior, capitalizando o público.
  • Se um orador cancelar, poder contactar oradores dos eventos seguintes para anteciparem a sua apresentação.
  • Ao inscrever um orador para um evento à distância de três meses, ele ou ela tem a oportunidade de vir assistir ao próximo evento, preparar-se melhor e até de publicitar junto de colegas.

Inspira mais confiança usar um endereço de e-mail dedicado, como por exemplo pubhd[nomedacidade]@gmail.com. O Sapo ou o Gmail são exemplos de dois serviços de e-mail gratuitos.

Não convém expor o e-mail no website. Para o contacto, o ideal é usar um formulário. O Google Forms é uma opção gratuita que regista automaticamente as inscrições numa folha de cálculo do Google Drive.

Os organizadores do PubhD de Nottingham podem criar, gratuitamente, um endereço nomedacidade@pubhd.org. No entanto, neste momento só serve para receber e-mails e para utilizar em serviços de newsletter, como o Mailchimp, de modo a evitar problemas de spam.

Preparar os oradores

Convém informar bem os oradores acerca do formato, do tipo de público, do tempo que terão disponível, dos recursos que terão à disposição e de como reagir às perguntas. Esta informação pode ser enviada por e-mail, ou poderá ser agendado um encontro antes do evento.

Muitos estudantes de doutoramento têm pouca experiência em comunicar em público, sobretudo para uma assistência não especializada na sua área. Não sendo possível dar formação, algumas dicas poderão ser úteis. Em Lisboa temos esta página que fornece dicas rápidas para os oradores tirarem o melhor partido da sua participação num PubhD.

As dicas mais importantes são:

  • definir uma ou duas ideias principais e construir o discurso à volta delas;
  • utilizar a apresentação para suscitar perguntas para as pessoas colocarem a seguir;
  • evitar termos técnicos, ou explicá-los;
  • projetar a voz, usando a respiração pelo diafragma;
  • falar para toda a assistência, mantendo o contacto visual;
  • falar em pé e numa postura aberta;
  • repetir as perguntas sempre que estas não tenham sido audíveis para toda a assistência.

Trazer público

Os organizadores dos PubhD têm usado as seguintes estratégias de ‘publicidade’.

  • Grupo no Facebook. Para grupos com até poucas centenas de membros, estes são automaticamente convidados para cada novo evento criado no grupo.
    Se este grupo for público, os eventos também serão, sendo acessíveis mesmo a quem não esteja no grupo, e até visíveis por quem não esteja no Facebook.
    Os eventos podem ser partilhados e os membros do grupo podem convidar outras pessoas.
    Uma página no Facebook tem um carácter mais institucional, mas pode ser uma alternativa a um grupo.
  • Grupo no meetup.com, em alternativa ou complementar ao Facebook.
  • Conta no Twitter, sobretudo para partilhar oportunidades académicas e atrair futuros oradores.
  • Website com informação sobre a origem do PubhD, o formato dos eventos e a forma de entrar em contacto, além de informação sobre os próximos eventos. Há plataformas gratuitas como o wordpress.com ou o wix.com
  • Newsletter enviada para uma lista de e-mails (mailing list). O wordpress.com tem esta ferramenta, ou pode ser integrado com a versão gratuita do mailchimp.com
  • Resenhas dos eventos publicadas em websites de notícias locais ou de teor cultural.
  • Divulgação na agenda cultural do município.
  • Divulgação na agenda cultural ou em colunas regulares de jornais locais ou regionais.
  • Divulgação nas rádios locais ou universitárias.
  • Distribuição de panfletos em teatros, cafés, museus, cinemas ou livrarias (requer financiamento).
  • Divulgação feita pelo próprio bar que acolhe o PubhD.

Por cortesia, qualquer iniciativa que siga o formato PubhD deverá mencionar a origem da ideia, apresentando nos seus canais online ligações para o website do PubhD de Nottingham ou para o PubhD.org.

Financiamento

A maioria das iniciativas PubhD são voluntárias e independentes de instituições, o que limita a sua capacidade de financiamento.

O formato do PubhD conta com a ajuda inestimável dos oradores, que vêm falar da sua investigação de forma voluntária, apenas em troca da oferta simbólica de algumas bebidas. Também se espera que o bar ceda o espaço a título gratuito, sobretudo se o evento se realizar numa hora em que habitualmente há pouco movimento.

Em geral os PubhD funcionam através do contributo do público para se oferecerem as bebidas aos oradores (em Lisboa agradecemos o contributo de €0,50 a €1 por pessoa). Em alguns PubhD, o bar disponibiliza-se para oferecer as bebidas aos oradores.

Além de um quadro, marcadores e apagador, não existem outras despesas materiais significativas associadas à organização de um PubhD.

Se não houver outro financiamento, não é possível cobrir outros custos, como por exemplo a deslocação de oradores de outras cidades, ou a impressão de folhetos e cartazes.

O evento

Antes de o evento começar deve-se apresentar os oradores uns aos outros, recordar-lhes o formato e dizer-lhes como devem pedir as bebidas (convém ter também um jarro com água perto do quadro para se servirem durante a apresentação).

Os eventos seguem em geral o seguinte formato:

  • Início com uma introdução: apresentam-se os oradores, as instituições onde investigam, e os seus temas. Descreve-se o formato do evento e, se for o caso, agradecem-se as contribuições para as bebidas dos oradores.
  • 10 minutos de apresentação do 1º orador, seguidos de tempo para perguntas e respostas (pelo menos 20 minutos).
  • 10 minutos de intervalo.
  • 10 minutos de apresentação do 2º orador, seguidos de tempo para perguntas e respostas (pelo menos 20 minutos).
  • 10 minutos de intervalo (no PubhD de Lisboa recolhemos os contributos neste intervalo) .
  • 10 minutos de apresentação do 3º orador, seguidos de tempo para perguntas e respostas (pelo menos 20 minutos).
  • Termina com a divulgação dos temas do evento seguinte e os agradecimentos finais à assistência, ao bar e aos oradores (pode-se também fazer publicidade às redes sociais e à newsletter, assim como convidar potenciais futuros oradores).

Embora os oradores sejam apresentados no início do evento, convém fazer novamente uma breve introdução antes da intervenção de cada um.

A ordem em que os oradores apresentam pode ser definida entre eles no início do evento. É preferível a uma ordem fixa e previsível (p.ex. por ordem alfabética), de modo a evitar que a assistência venha assistir apenas à apresentação que mais lhe interessa.

Se quiseres lançar um PubhD, ou tiveres questões, entra em contacto.

O PubhD no Mundo

Website do primeiro PubhD, o PubhD de Nottingham
https://pubhd.wordpress.com/

Em Portugal o PubhD já é organizado em várias cidades. Podes consultar nesta página as iniciativas PubhD ativas no nosso país e os seus contactos.

Notas:

1. A diversidade de temas tem várias vantagens:

  • Os oradores sentem que têm de usar uma linguagem não técnica.
  • A assistência é também diversificada e geram-se conversas que cruzam experiências diferentes.
  • Um tema mais popular traz novo público para outro tema que é menos conhecido.
  • Oradores de diferentes áreas académicas aprendem com as técnicas de comunicação uns dos outros.

2. Exemplos de perguntas para ‘reativar’ a conversa:

  • “Que dificuldades encontraste até agora?”
  • “Quais são os teus próximos passos?”
  • “O que pensavas descobrir e não conseguiste?”
  • “Há outros grupos a fazer o mesmo que tu? Colaboram uns com os outros, ou há competição?”

3. Esta página foi preparada com base na experiência do PubhD de Lisboa e em vários materiais, incluindo este artigo no website do PubhD de Nottingham.

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