19º PubhD de Lisboa em revista – parte 2

José Eliézer Mikosz (Antar)1 falou-nos de poéticas visionárias e de como as reencontramos em dois artistas portugueses separados de quatro séculos.

Ao longo dos tempos e através das culturas, são recorrentes padrões geométricos, símbolos e representações espirituais que partilham semelhanças com visões alucinatórias. Para Antar Mikosz, são disso exemplo as espirais, assim como a auréola em redor de figuras sagradas.

Gravura de "De Aetatibus Mundi Imagines"
Gravura de “De Aetatibus Mundi Imagines”, de Francisco de Holanda (Biblioteca Digital Hispánica), acedida em https://tendimag.com/2012/03/17/francisco-de-holanda-gravuras/

Não são apenas as substâncias psicoativas a provocar alucinações e perturbações da ordem dos sentidos e da consciência, exploradas por exemplo pelas culturas xamânicas. Antar Mikosz disse-nos que dois por cento das pessoas as tem naturalmente, enquanto que noutras pessoas podem ser provocadas pela meditação ou pelo jejum prolongado, entre outras práticas com o mesmo fim.

Francisco de Holanda, no seu livro “Da Pintura Antiga”, escreveu sobre o “Furor Divino” como meio de inspiração.

O conceito de psicadélico, etimologicamente, significa revelar ou clarificar a alma, e por isso é bastante ampla a abordagem de Antar, no contexto do seu pós-doutoramento, aos estados especiais de perceção enquanto inspiração artística, não estando restrito ao uso de substâncias nem a um período histórico.

Antar Mikosz propôs-se investigar as poéticas visionárias e psicadélicas na obra de dois artistas portugueses separados de quatrocentos anos: Francisco de Holanda, que viveu no século XVI, e Lima de Freitas, que faleceu em 1998. Francisco de Holanda, no seu livro “Da Pintura Antiga”, escreveu sobre o “Furor Divino” como meio de inspiração. Já em Lima de Freitas, foi o conceito de “Paisagens Visionárias”, pintadas por este artista, que atraiu o interesse de Antar.

O Sol da Justiça
O Sol da Justiça, tríptico de Lima de Freitas na sala de audiências do Tribunal Judicial da Lousã (acedida em http://www.redeconhecimentojustica.mj.pt/Category.aspx?id=58).

Para Antar Mikosz é fácil reconhecer a inspiração visionária nas obras destes dois artistas, tanto pelo extenso material sobre as manifestações visionárias em arte, psicologia e antropologia que explorou no contexto do seu doutoramento, como pela sua experiência pessoal numa comunidade religiosa no Brasil, sob o efeito de uma mistura usada para fins terapêuticos e espirituais, de nome ayahuasca.

Segundo este investigador, as substâncias psicoativas são uma fonte de inspiração e podem desbloquear uma criatividade natural latente, mas não “criam” artistas. Para além disso, desaconselha-se o seu uso recreativo e não acompanhado, uma vez que é sabido que podem favorecer ou acentuar problemas de saúde mental.

1. José Eliézer Mikosz (Antar) é investigador de pós-doutoramento na Universidade Estadual do Paraná (Unespar-Embap) e na Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa.

19º PubhD de Lisboa em revista – parte 1

Rodrigo Lacerda1 falou-nos da história e do impacto do cinema produzido por realizadores indígenas no Brasil.

Há já várias décadas que o cinema é reconhecido como um meio para dar voz aos povos e às culturas indígenas. Filmes de autores indígenas têm sido exibidos tanto em festivais de cinema indígena como nos populares festivais internacionais de cinema.

Vídeos nas Aldeias
Créditos: Vídeos nas Aldeias

Depois de uma fase inicial em que a expressão cinematográfica permanecia ainda do lado de um realizador enquanto “mediador tecnológico”, a transferência do “saber fazer” através da formação de realizadores indígenas carateriza a fase atual.

É disso exemplo o projeto “Vídeos nas Aldeias”, iniciado nos anos de 1980, no Brasil, em que se constituiu uma escola de realizadores em aldeias indígenas e o acesso a equipamento e materiais.

Segundo o Rodrigo Lacerda, um dos resultados deste acesso a um suporte visual foi a circulação entre populações indígenas de imagens e material vídeo produzidos noutras comunidades. Foi enfim possível umas comunidades terem acesso à cultura visual de outras e reconhecer afinidades culturais e linguísticas, apesar da presença da televisão, e atualmente da internet, em muitas destas populações.

As obras refletem a espiritualidade e os mitos destas populações, mas também a pressão territorial e a asfixia provocadas pelas cidades e latifúndios envolventes.

Cineastas Indígenas
Créditos: Ariel Duarte Ortega, Patrícia Ferreira (Keretxu), Jorge Ramos Morinico e Vídeos nas Aldeias

O modelo de formação segue um regime de oficina diária, com a duração de 3 semanas, centrada na prática e na discussão do trabalho feito. As obras que têm sido produzidas refletem a espiritualidade e os mitos destas populações, mas também a pressão territorial e a asfixia provocadas pelas cidades e latifúndios envolventes a estas aldeias.

Rodrigo Lacerda, que estudou a expressão cinematográfica do povo Mbya Guarani, comenta que, embora na generalidade a tipologia mais comum seja o documentário, é presente uma certa “ficção”, uma vez que as referências espirituais permeiam o dia-a-dia destes povos.

 

Algumas das obras criadas no âmbito do projeto Vídeos nas Aldeias encontram-se em acesso livre no respetivo website. O catálogo pode ser acedido em http://www.videonasaldeias.org.br/2009/video.php

Conhecer as tecnologias de produção subjacentes é ter uma consciência mais ativa e informada sobre ao nível de “verdade” e de “transparência” desses meios de disseminação.

Uma das questões que se levantam é a de saber até que ponto este acesso a uma tecnologia com origem na “cultura dominante” não corre o risco de “impor” essa mesma cultura.

Rodrigo Lacerda argumenta que a tecnologia de disseminação já faz parte do dia-a-dia de muitas destas populações através da televisão, dos telemóveis e da internet. Conhecer as tecnologias de produção subjacentes é ter uma consciência mais ativa e informada sobre ao nível de “verdade” e de “transparência” desses meios de disseminação.

Fotograma do filme “Já me transformei em imagem”, disponível em http://www.videonasaldeias.org.br/2009/video.php?c=26.
Crédito: Zezinho Yube
(Hunikui (Kaxinawá))

Por outro lado, as populações que participam no projeto Vídeos nas Aldeias fazem-no de forma voluntária e não querem ser privadas destas tecnologias e de as apropriarem à sua maneira apenas pelo facto de serem indígenas.

1. Rodrigo Lacerda é investigador de doutoramento em Políticas e Imagens da Cultura e Museologia no Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, no ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa e no CRIA-Centro em Rede de Investigação em Antropologia.

Dentro de dias publicaremos a segunda parte deste resumo, onde daremos conta do que José Antar Mikosz partilhou connosco sobre a influência de substâncias psicoativas nas artes visuais.


Depois de uma pausa nos meses de Verão, a próxima sessão do PubhD de Lisboa será a 13 de setembro, no Bar Irreal.
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19º PubhD de Lisboa: Antropologia e Artes Visuais em diálogo

7 de junho, 19:30 – 21:30, no Bar Irreal

Uma semana mais cedo que o habitual (para nos prepararmos para o Santo António), o PubhD de Lisboa propõe um formato um pouco diferente. Vamos falar de artes visuais e cinema do outro lado do Atlântico. Na terceira parte teremos uma conversa cruzada a partir dos pontos de contacto entre os dois temas deste mês.

O PubhD de Lisboa reúne investigadores de doutoramento, ou pós-doutoramento, no ambiente informal de um bar, para explicarem a sua investigação em linguagem acessível e responderem a perguntas. Cada apresentação terá a duração de 10 minutos, seguida de 20 minutos para perguntas.

"Aya-vine"José Mikosz procura mostrar a influência de estados não ordinários de consciência nas representações visuais ao longo dos tempos.

O José é investigador de pós-doutoramento na Universidade Federal de Santa Catarina e na Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa.

É professor na Escola de Música e Belas Artes da Universidade Estadual do Paraná, no Brasil. É também artista transmédia e membro de núcleos de investigação sobre Psicoativos e a Cultura Visionária/Psicadélica.


Imagem: “Aya-vine”, trabalho inspirado em experiências com ayahuasca dentro de contextos religiosos no Brasil.

Bastidores do filme “Já me transformei em imagem”, disponível em http://www.videonasaldeias.org.br/2009/video.php?c=26.
Crédito: Zezinho Yube (Hunikui (Kaxinawá)) e “Vídeos nas Aldeias”.

No Brasil, nos anos 80, a ONG “Vídeo nas Aldeias” começou a desenvolver um trabalho colaborativo com povos indígenas na área do cinema e, a partir de 1997, iniciou um processo de formação de cineastas indígenas.

Rodrigo Lacerda está a investigar o político, o espiritual e o humor no cinema Mbya Guarani na forma como se relaciona com o passado e a sociedade colonial.

O Rodrigo está a fazer o doutoramento em Políticas e Imagens da Cultura e Museologia na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, no ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa, e no Centro em Rede de Investigação em Antropologia.

Rodrigo Lacerda estudou Cinema e Televisão na London Metropolitan University e National Film and Television School, no Reino Unido. Co-realizou e produziu vários filmes/documentários e fez entretanto o mestrado em Antropologia.

Agradecemos que confirme a sua presença na página do evento no Facebook:
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18º PubhD de Lisboa: Antropologia, Arqueologia e Desenho

10 de maio, 19:30 -21:30, no Bar Irreal

No PubhD de maio vamos falar de um conjunto de festas com mais de 150 anos que se celebram numa povoação do Estado de Mato Grosso, no Brasil, da relação entre as estradas e o território na Lusitânia romana, e da forma como os artistas exploram a sua experiência pessoal através do desenho e do livro de artista.

O PubhD de Lisboa reúne três investigadores de doutoramento, ou pós-doutoramento, no ambiente informal de um bar, para explicarem a sua investigação em linguagem acessível e responderem a perguntas. Cada apresentação terá a duração de 10 minutos, seguida de 20 minutos para perguntas.

Dicionário pessoal ilustrado.
Dicionário pessoal ilustrado, apresentado uma visão critica e criativa sobre a cidade das Caldas da Rainha. Créditos: Filipa Pontes.

Filipa Pontes está a investigar a relação entre o desenho e o livro de artista na perspetiva das formas como o artista explora a sua experiência pessoal e a relaciona com os significados culturais e sociais à sua volta.

Esta perspetiva é designada por autoetnografia, e a Filipa pretende discutir o desenho autoetnográfico como campo de produção artística e de investigação.

A Filipa Pontes está a fazer o seu doutoramento na Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa. Pós-graduada em Ilustração Criativa em Barcelona, colabora com instituições relacionadas com arte, cultura e educação em vários países ao nível de projetos e formações.

"Festança", um conjunto de três festas em Vila Bela da Santíssima Trindade.
“Festança”, um conjunto de três festas em Vila Bela da Santíssima Trindade: Divino, São Benedito e Santíssima Trindade.

“Festança” é como uma comunidade de negros em Vila Bela da Santíssima Trindade, a oeste de Mato Grosso, chamam a um conjunto de festas católicas que realizam há mais de 150 anos. São festas que misturam tradições católicas e africanas, assim como tradições portuguesas.

Heloisa Afonso Ariano quer conhecer o projeto de sociedade que este conjunto de festas celebra, bem como os conflitos a que dão lugar. O resultado poderá ser um reconhecimento desta festa como património nacional.

A Heloisa está a fazer um estágio doutoral na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. É antropóloga e professora na Universidade Federal de Mato Grosso, dedicando-se ao estudo de culturas populares, religiosidade e património.

Estrada romanaMaria José de Almeida procura compreender a ligação entre as estradas e o território na Lusitânia romana.

É investigadora de doutoramento na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Foi professora no 2º ciclo e técnica de arqueologia e museologia em câmaras municipais. Trabalha na área de sistemas de informação na Direção Geral do Livro, dos Arquivos e da Biblioteca.

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17º PubhD de Lisboa em revista

O comércio de arte ‘degenerada’ em Portugal,  compreender por que a nossa espinal medula não regenera após uma lesão, e a masculinidade em orgias entre homens, foram os três temas em conversa no PubhD de Lisboa de abril.

Arte ‘degenerada’ em trânsito

Cena de um leilão de arte 'degenerada' em 1938Muitas obras de artistas alemães espoliadas pelo regime nazi encontravam-se em museus e coleções dos Estados Unidos após a Segunda Guerra Mundial. Para Inês Fialho Brandão, historiadora na National University of Ireland, sendo Portugal um dos poucos países que mantiveram uma ligação transatlântica durante a guerra, é natural perguntar-mo-nos se serviu de local de venda ou passagem destas obras.

A proveniências das obras que se encontram hoje em museus e coleções é uma questão que, segundo a Inês, não tem sido uma prioridade para os museus portugueses. Porém, algumas das obras poderão fazer parte do conjunto que foi retirado pelos nazis aos seus legítimos proprietários, sejam artistas ou colecionadores.

As obras espoliadas, com o argumento de serem ‘arte degenerada’, ou eram destruídas, ou eram vendidas no estrangeiro de forma a financiar o regime.

Um dos possíveis negociantes de arte alemães no estrangeiro terá sido Karl Buchholz, que estabeleceu uma rede de livrarias, incluindo a de Lisboa em 1943.

Tendo sido Portugal um país onde viveram ou por onde passaram refugiados durante a Segunda Guerra Mundial, entre eles artistas e colecionadores, a Inês pesquisou informação sobre outros negociantes de arte estabelecidos, por exemplo, em Lisboa e na Figueira da Foz, assim como os arquivos alfandegários relativos aos trânsitos para os Estados Unidos.

Cicatrizar a espinal medula

Neurónios MotoresOs seres humanos, assim como os mamíferos em geral, não têm capacidade de formar novos neurónios motores, ao contrário do que acontece à maioria dos outros tecidos do corpo, como a nossa pele. É por esta razão que lesões na espinal medula podem conduzir à paralisia.

 

Verifica-se porém que os neurónios motores humanos, quando isolados do corpo e em condições favoráveis, são capazes de se regenerar.

Além disso, não são diferentes dos neurónios motores de outros animais que têm a capacidade de os regenerar, como o peixe-zebra. Este peixe é precisamente o objeto de estudo de Isaura Martins, investigadora no Instituto de Medicina Molecular da Universidade de Lisboa.

Peixe-zebraConclui-se então que o que difere entre o peixe-zebra e os seres humanos é o ambiente em que estas células se encontram no nosso corpo – há algo na nossa espinal medula que inibe a regeneração.

A hipótese em que a Isaura está a trabalhar é a de que as células da rede vascular que irriga o tecido possam ter alguma influência. Por exemplo, poderá explicar-se pela libertação ou não de uma substância que inibe ou que favorece a regeneração dos neurónios motores. Ainda que tal processo seja identificado e possa ser compensado no momento de uma lesão, será necessário conhecer o seu papel no nosso corpo e se interferir nele não trará outras consequências.

A masculinidade em festas entre homens

"La Bacchanale"
“La Bacchanale”, Pablo Picasso, 1944
Acedido em http://cs.nga.gov.au/Detail.cfm?IRN=115972

Existem no Rio de Janeiro algumas casas comerciais onde se realizam festas de orgia exclusivas para homens. Estas práticas existem também em contextos espontâneos. Victor Hugo Barreto, que concluiu o seu doutoramento no Centro em Rede de Investigação em Antropologia e na Universidade Federal Fluminense, interessou-se por saber de que forma estas práticas reforçam ou contrariam a normalidade em termos de identidade sexual.

Nas festas, que o Victor estudou de um ponto de vista etnográfico, existem pessoas de vários estratos sociais e em geral não se conhecem fora daquele espaço. Segundo o Victor, os participantes nestas festas estão unicamente interessados no prazer e numa abordagem tipicamente masculina, a de se levarem aos seus próprios limites. Trata-se da mesma masculinidade que se encontra noutras manifestações sociais, como os desportos radicais. Esta razão poderá explicar por que é quase inexistente o equivalente feminino.

Outro aspeto registado pelo Victor foi o facto de os membros destes clubes não se identificarem com o discurso homossexual, com o argumento de que o sexo para eles não tem identidade. Desta forma se excluem das manifestações sociais associadas aos movimentos LGBT.


A próxima sessão do PubhD de Lisboa será a 10 de maio, no Bar Irreal.
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