42º PubhD de Lisboa em revista: 2ª parte

As estratégias para combater os vírus que infetam o cérebro, este foi um dos temas em conversa na sessão do 42º PubhD de Lisboa.

As estratégias para combater os vírus que infetam o cérebro

Numa altura em que os vírus estão na ordem do dia, o Diogo Mendonça, estudante de doutoramento no Instituto de Medicina Molecular João Lobo Antunes, da Universidade de Lisboa, centra a sua investigação em dois vírus bastante conhecidos: o Dengue e o Zika. Relativamente semelhantes, ao infetarem um indivíduo saudável podem produzir sintomas que se assemelham aos de uma gripe.

Diogo Mendonça
(Créditos: Carolina Figueira)

A particularidade destes vírus é que conseguem chegar ao cérebro. Quando infetam diretamente o cérebro podem causar lesões irreparáveis e por vezes fatais”

O Zika foi responsável em 2016, apenas no Brasil, por mais de 8500 casos de microencefalia, ou seja, quando o vírus conseguiu infetar uma mulher grávida e chegar ao cérebro do feto, não permitiu que este se desenvolvesse corretamente. As crianças acabaram por nascer com deficiências físicas irreparáveis no crânio e no cérebro.

O Dengue, chegando ao cérebro, pode provocar uma febre hemorrágica bastante grave e rápida que leva muitas vezes à morte. Estima-se que, em todo o mundo, morram por ano entre 12 mil a 13 mil pessoas devido ao vírus do Dengue. 

Estes dois vírus partilham outra particularidade: são ambos transmitidos através de um mosquito, circunscrito a algumas partes do mundo. No entanto, devido às alterações climáticas e ao aumento da temperatura global, tem-se vindo a registar uma expansão territorial destes mosquitos. O mosquito que transmite o vírus do Dengue já chegou à Madeira, por exemplo, e pode chegar em breve a Portugal Continental.

As infeções virais no cérebro são muito difíceis de curar e os fármacos que resolvem estes problemas são extremamente complicados de produzir. O cérebro é revestido por um conjunto de vasos capilares que protege e regula a troca de moléculas entre o exterior e o interior, a que se chama barreira hematoencefálica. Esta barreira é impermeável a todas as moléculas que não são conhecidas pelo nosso corpo, como grande parte dos fármacos que se fazem em laboratório.

O projeto de doutoramento do Diogo tem o objetivo de oferecer algumas soluções para o facto de não conseguirmos ter um tratamento eficiente contra infeções virais no cérebro. No laboratório Miguel Castanho, onde tem desenvolvido o seu trabalho, estuda duas moléculas que podem ter, quando conjugadas, resultados promissores: as porfirinas e os péptidos translocadores de barreira. 

As porfirinas são moléculas que têm revelado uma promissora capacidade de combate aos vírus e os péptidos são fragmentos de proteína ou um conjunto limitado de aminoácidos, desenvolvidos no seu laboratório. Permitem passar do lado sanguíneo para o lado cerebral sem danificar a barreira hematoencefálica.

O Diogo procura uma molécula que consiga transportar um fármaco até ao cérebro sem que destrua ou danifique a barreira hematoencefálica. Para isso, tem conjugado diferentes moléculas antivirais e diferentes moléculas translocadoras da barreira do cérebro.

42º PubhD de Lisboa em revista: 1ª parte

A videira e os seus mecanismos para combater doenças: este foi um dos temas em conversa na sessão do 42º PubhD de Lisboa.

A videira e os seus mecanismos para combater doenças

A videira é uma das culturas de fruto mais cultivadas em todo o mundo, sendo o seu produto, o vinho, muito importante economicamente, em cada vez mais países. O estudo da interação entre a videira e o míldio, que é um conjunto de doenças específicas das plantas, é o objeto de estudo da investigação da Ana Rita Cavaco, investigadora do BioIsI da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.

A espécie de videira mais utilizada na produção de vinho e na agricultura intensiva é muito suscetível a várias doenças, como o míldio. Todos os anos o míldio coloca em causa cerca de (até) três quartos da produção e encontra em Portugal as condições de humidade e de temperaturas ideias para o seu desenvolvimento.

Para combater esta doença, faz-se a aplicação de pesticidas, de forma intensiva (ou seja, de 15 em 15 dias), desde a primeira folha até à maturação das uvas.

Ora, os pesticidas podem ter efeitos nocivos não só na poluição dos solos, mas também no ecossistema e até na nossa saúde. É, por isso, muito importante encontrar alternativas mais sustentáveis para o combate a esta doença.”

Uma das formas de reduzir o uso dos pesticidas nas vinhas é a compreensão da interação entre a planta e a doença (a videira e o míldio), de forma a perceber os seus mecanismos para a combater. Para conseguir fazer isto, a Ana Rita diminuiu a escala, reduzindo-a ao nível da célula. Centra-se no papel das membranas que estão em torno da célula (e de alguns dos seus componentes) e que são constituídas por uma camada de lípidos ou gorduras. 

Ana Rita Cavaco
(Créditos: Carolina Figueira)

Neste contexto, os lípidos têm não só a função de manter a estrutura das células, mas também têm uma função energética e de sinalização. Numa situação de doença por míldio, os lípidos transmitem uma mensagem à célula, que leva à formação de uma hormona vegetal (o ácido jasmónico), que vai desencadear as respostas de defesa da videira.

A Ana Rita tem como objetivo compreender como é que esta mensagem é transmitida e de que forma se realiza esta sinalização no interior das células. Para esse resultado, utiliza videiras de uma casta suscetível (que não é tolerante ao míldio) e videiras de uma casta não suscetível. Costuma utilizar como modelo de sensibilidade a trincadeira, muito utilizada nos vinhos portugueses e como modelo tolerante um híbrido alemão.

Infeta as duas espécies com míldio e vai recolhendo folhas, onde vai medindo o seu conteúdo em lípidos, normalmente desde o momento em que as infeta até que aparecem os primeiros sintomas. Conseguiu, até agora, perceber que existem diferenças entre as espécies suscetíveis e não suscetíveis. Enquanto nas variedades que não são suscetíveis existe uma alteração da quantidade de lípidos, o que significa uma transmissão da mensagem, tal não ocorre na variedade suscetível. Enquanto as variedades tolerantes apresentam várias reações, até causando a morte programada de algumas células para impedir que a doença possa progredir, a trincadeira está bastante suscetível e fica apenas à espera de se degradar completamente.

A Ana Rita refere que a sua investigação pode ser útil para os agricultores uma vez que espera que, numa fase precoce, ainda antes de surgirem os primeiros sintomas nas videiras, estes serem capazes de detetar a doença. Isso pode permitir que se faça no futuro uma aplicação racional dos pesticidas. 

Não perca a 2ª parte, a publicar em breve.

43º PubhD de Lisboa: Medicina e Relações Internacionais.

Quarta-feira, 11 de março de 2020, 19:30 – 21:00, no Má Língua.

As diferenças na pigmentação da pele, e a geopolítica da Alemanha, serão os dois temas em conversa na sessão do 43º PubhD de Lisboa.

O PubhD de Lisboa reúne investigadores de doutoramento no ambiente informal de um bar, para explicarem a sua investigação em linguagem acessível e responderem a perguntas. Cada apresentação terá a duração de 10 minutos, seguida de 25 minutos para perguntas.

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As oradoras

Pigmentação da pele alterada pela doença autoimune vitiligo.
Pigmentação da pele alterada pela doença autoimune vitiligo.
Créditos: Nadine Mot Mitchell via Flickr

Liliana Lopes (Medicina) tem como objetivo compreender porque temos cores de pele diferentes. Para isso desenvolve na sua investigação técnicas que permitam ajustar a cor da pele, no caso de doenças em que a pigmentação se alterou.

A Liliana é estudante de doutoramento no Centro de Investigação em Doenças Crónicas (CEDOC) da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa. O seu percurso académico começou no Algarve, mas a sua origem é do centro de Portugal. Para além de se dedicar à ciência, gosta de desportos coletivos e de jogos online.

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Porta de Brandeburgo, símbolo da cidade de Berlim, Alemanha. Créditos: Marisa Fernandes

Marisa Fernandes (Relações Internacionais) desenvolve a sua investigação na área de Estratégia e Geopolítica. O principal objetivo do seu trabalho é perceber se existe ou não uma Geopolítica da Alemanha e de que forma esta pode influenciar a Política Externa Alemã. O seu principal foco são os governos liderados por Helmut Kohl a Angela Merkel.

No seu trabalho, os eixos da cultura, economia e defesa são analisados de modo a perceber quais os padrões que surgem através das decisões da política alemã.

A Marisa defendeu a sua tese de doutoramento em Estudos Estratégicos no Instituto Superior de Ciências Sociais e Politicas da Universidade de Lisboa.

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42º PubhD de Lisboa: Biologia Vegetal e Bioquímica.

Quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020, 19:30 – 21:00, no Má Língua.

A videira e os seus mecanismos para combater doenças, e estratégias para combater vírus que infetam o cérebro, serão os dois temas em conversa na sessão do 42º PubhD de Lisboa.

O PubhD de Lisboa reúne investigadores de doutoramento no ambiente informal de um bar, para explicarem a sua investigação em linguagem acessível e responderem a perguntas. Cada apresentação terá a duração de 10 minutos, seguida de 25 minutos para perguntas.

Os oradores

Ana Rita Cavaco
Papel das membranas lipídicas em processos de defesa contra doenças fúngicas em videira. Créditos: Ana Rita Cavaco

Ana Rita Cavaco (Biologia Vegetal) tem como principal objetivo compreender os mecanismos de reação da videira a doenças. O seu trabalho vai contribuir para a descoberta de novas e mais sustentáveis estratégias de controlo de doenças como o míldio e o oídio. Para além disso, vai também ajudar na deteção precoce de doenças em culturas de videira.

A Ana Rita é doutoranda do Instituto de Biossistemas e Ciências Integrativas da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.
A curiosidade pela biologia vegetal despertou-lhe o interesse pela videira, e também cada vez mais pelo seu produto final, o vinho.

 

Diogo PubHd
Combater vírus residentes no cérebro atravessando a barreira hematoencefálica usando conjugados de péptido-droga. Créditos: Diogo Mendonça

Diogo Mendonça (Bioquímica) tem como objetivo desenvolver moléculas que sejam capazes de penetrar no cérebro e atacar vírus que infetam este órgão, como o Zika, o Dengue, ou o VIH, e lhe causam lesões irreversíveis.

O sucesso do seu trabalho poderá resultar numa possível terapia inovadora contra estas e outras infeções virais no cérebro.

O Diogo é investigador de doutoramento no Instituto de Medicina Molecular – João Lobo Antunes. Assume ser um jovem cientista, em constante procura de novos contributos para a área da investigação biomédica.

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41º PubhD de Lisboa em revista

Os Festivais da Canção e a relação entre a música e a televisão, e as novas abordagens para a regulação da cor da pele: estes foram os temas em conversa na sessão do 41º PubhD de Lisboa.

Festivais da Canção e a relação entre a música e a televisão

O concurso mais duradouro da televisão portuguesa, desde 1964 na RTP, mereceu a atenção por parte da Sofia Vieira Lopes, investigadora no Instituto de Etnomusicologia da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade NOVA de Lisboa (INET-MD). O Festival RTP da Canção, concurso português, leva os seus vencedores ao Festival Eurovisão da Canção. Neste último, onde vários países se reuniram no contexto do pós Segunda Guerra Mundial, criou-se uma comunidade em torno da tecnologia de broadcasting.

Através deste estudo, a Sofia pretende compreender de que forma é escolhida a representação nacional e como esta é pensada pelos diversos agentes envolvidos. Em 2017, o Festival RTP da Canção voltou à ribalta em Portugal devido à vitória de Salvador Sobral com o tema “Amar pelos Dois” e a primeira vitória portuguesa no Festival Eurovisão da Canção. 

Sofia Vieira Lopes
(Créditos: Carolina Figueira)

Mas a investigação da Sofia começou antes desse fenómeno e trouxe uma questão pertinente: o que é afinal uma música que possa representar o país num Festival?

“As alterações levam o Festival a adaptar-se à música que é produzida hoje em dia…

afirma, não havendo regras, impostas para a submissão de músicas, no que ao estilo diz respeito.

Este concurso é especial, não só pela sua longevidade (mais de 50 anos), mas porque congrega cerca de 700 canções originais, escritas propositadamente para o festival, e onde se reúnem mais de 1600 profissionais só da área da música. Foi durante muitos anos um evento fundamental para a carreira de muitos artistas portugueses. No entanto, a ligação entre as várias indústrias foi-se deteriorando, assim como a relação entre os artistas e o concurso.

O objetivo do estudo da Sofia é perceber a relevância do Festival da Canção, o seu papel nas memórias coletivas e na construção de narrativas sobre as identidades nacionais relacionadas com estas memórias.

Quer também perceber de que forma se criam “comunidades imaginadas” em torno da ideia da representação do país, como é que a música as operacionaliza e agrega. Ainda, espera desvendar o papel da televisão na criação destas narrativas e na forma de moldar as memórias coletivas.

Novas abordagens para a regulação da cor da pele

A Doença de Griscelli é uma doença genética rara, caracterizada pela falta de pigmentação da pele e que pode atingir na mesma proporção homens e mulheres. Além da aparência parcialmente albina, pode provocar reações do sistema do nosso corpo que nos defende de elementos estranhos, como bactérias e vírus, chamado sistema imunitário. É o objeto de estudo do João Charneca, investigador do Centro de Investigação em Doenças Crónicas (CEDOC) da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa.

A pigmentação da nossa pele deve-se à comunicação entre dois tipos de células: uma que envolve toda a nossa pele e recebe o pigmento, aquilo que dá a cor à pele, o queratinócito; e outra que produz a melanina (a cor), o melanócito, que se encontra mais fundo na nossa pele.

Podemos também encontrar melanócitos nos sinais que todos temos na pele, mais escuros e salientes. Para termos cor na nossa pele, a melanina que é produzida pelos melanócitos tem que ser transportada para os queratinócitos, que se encontram numa camada superior da pele. 

Os pacientes com a doença de Griscelli têm um defeito no transporte da melanina e o objetivo deste projeto é perceber este defeito. Para explicar o funcionamento da doença, o João levou a audiência por uma viagem a uma fábrica que todos temos. Esta fábrica é o melanócito, em forma de estrela. A melanina é uma caixa preta produzida no centro dessa fábrica. Quando a caixa preta está completa, e mantendo a analogia, é necessário um operário que pegue na caixa e a coloque num tapete rolante que a levará à saída. Esse operário é uma proteína (RAB27A) que as pessoas com a doença de Griscelli não têm. 

Não havendo um operário responsável por esta tarefa, as células ficam confusas, continuam a produzir caixas pretas e a acumulá-las na fábrica, como num armazém.

João Charneca
(Créditos: Andreia Ferreira)

O resultado é um tom de pele muito claro ou com muitos pontos escuros, tendo semelhanças com as sardas. Esta proteína não só trabalha nesta fábrica como assegura um trabalho semelhante no nosso sistema imunitário. Se não existir, estamos mais suscetíveis a doenças e outros problemas graves, resultantes de o sistema imunitário atacar o nosso próprio corpo, e que podem ser fatais. 

O único tratamento atual é um transplante de medula óssea: as células do dador conseguem compensar a proteína que está em falta. Este transplante não resolve totalmente o problema, apenas consegue curar os problemas de origem imunológica.

Os pacientes sujeitos a transplante continuam a ser mais propensos a ter cancros de pele e, sobretudo em países menos desenvolvidos onde a doença tem maior impacto, podem sofrer de problemas associados à discriminação racial. Não havendo a possibilidade de transplante de medula óssea, o paciente viverá dependente de medicamentos.

O objetivo da investigação do João é recriar a doença num contexto laboratorial através da produção de pele humana artificial. O método consiste em produzir a proteína fora do paciente, conseguir encapsulá-la num creme e que esse creme penetre na pele. O creme deverá penetrar o suficiente para chegar ao “centro da fábrica” e repor a proteína que está em falta. Se isso funcionar, mostrará que é possível solucionar o problema.